O Barclays acaba de elevar a recomendação para as ações da Alvotech, a fabricante islandesa de biossimilares, apostando suas fichas em uma tese banal e reveladora ao mesmo tempo: a de que o FDA vai finalmente destravar aprovações represadas nos próximos trimestres. O papel reagiu, os analistas escreveram seus relatórios em inglês corporativo, e ninguém parou para notar o óbvio que salta da manchete. O que move o preço não é competência industrial, que a empresa já demonstrou. É a expectativa de que a agência reguladora americana, enfim, deixe o remédio existir no mercado. Repita a frase devagar e sinta o peso: o ativo sobe porque o burocrata pode parar de atrapalhar.
Biossimilar, para quem não acompanha o setor, é a versão mais barata de um medicamento biológico cuja patente venceu. Em tese, deveria ser o sonho de qualquer autoridade sanitária preocupada com custo de saúde. Mais concorrência, preço menor, mesmo princípio ativo, mesmos ensaios clínicos. Na prática, o processo de aprovação nos Estados Unidos virou um labirinto de exigências, revisões, adiamentos e cartas de resposta completa que empilham anos de atraso sobre moléculas já testadas em milhões de pacientes europeus. A conta desse labirinto quem paga é o consumidor americano, que segue comprando o original a preço de original enquanto o similar espera na antessala do carimbo.
Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais nítida. Cada mês de atraso regulatório é um mês extra de exclusividade para o laboratório detentor da marca original, cujos lobistas conhecem o endereço de cada corredor em Washington. Não é teoria da conspiração, é aritmética de captura. A agência que deveria proteger o paciente acaba, na prática, protegendo o incumbente. E quando um banco de investimento anuncia que a coisa vai destravar, o que está dizendo em código é que os ventos políticos mudaram, que alguém no andar de cima resolveu apressar a caneta, que a inércia deliberada custou caro demais até para os padrões de tolerância do sistema.
Há uma lição aqui que a imprensa econômica raramente sublinha porque implicaria confessar sua própria fé equivocada. O valor de mercado de uma farmacêutica moderna não reflete só ciência, capital humano e capacidade fabril. Reflete, e muitas vezes de forma dominante, a probabilidade de o Estado permitir que ela venda o que já sabe produzir. Isso não é capitalismo. É uma versão asséptica do velho arranjo em que o soberano concedia o monopólio das especiarias a quem lhe agradasse. Trocamos a coroa pela agência independente, mas a lógica do favor permaneceu intacta, apenas mais bem vestida.
Enquanto isso, no Brasil, o debate sobre medicamentos continua preso à mesma novela de sempre. Anvisa que demora, SUS que pressiona por preço, laboratório público que tenta reinventar a roda com dinheiro do contribuinte, farmácia popular como bandeira eleitoral. Nenhuma dessas peças produz uma única molécula relevante no mercado global, mas todas consomem orçamento como se produzissem. A Alvotech, empresa de um país com trezentos e cinquenta mil habitantes, vale mais em bolsa do que boa parte do parque industrial farmacêutico nacional somado. Não é acaso, é consequência de escolhas institucionais feitas décadas atrás e renovadas em cada eleição.
O que se vê é o rating subindo, o analista sorrindo, o investidor animado. O que não se vê são os pacientes que morreram esperando alternativa barata durante os anos em que a burocracia americana travou o produto, os empregos que não foram criados, o capital que preferiu ir para setores menos policiados, o preço inflado que corroeu o poder de compra de aposentados sem que ninguém emitisse um recibo dessa inflação regulatória. Todo remédio caro esconde um funcionário público bem intencionado. Todo salto de ação farmacêutica esconde uma promessa de que ele vai, enfim, sair da frente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.