A Basecamp Research levantou cento e quarenta milhões de dólares e saiu da rodada avaliada em oitocentos milhões, sem ter lançado remédio, sem ter aprovação regulatória, sem ter demonstrado nada além de um pitch deck caprichado prometendo que algoritmos vão vasculhar a biodiversidade planetária e destilar dela a próxima geração de fármacos. Oitocentos milhões. Para efeito de comparação, isso é mais do que o valor de mercado de várias farmacêuticas brasileiras de médio porte que efetivamente produzem, embalam e vendem medicamento de gente que toma. A diferença é que a Basecamp tem duas letras mágicas no slide de abertura, e essas duas letras hoje abrem cofres que dez anos atrás só se abriam para receita comprovada.

Quer dizer, ninguém está avaliando a empresa. Está se avaliando a narrativa. E a narrativa é a mesma que já vimos girar em outras roupagens: a internet ia acabar com o varejo físico em 2000, o blockchain ia acabar com os bancos em 2017, o metaverso ia acabar com o escritório em 2022, e agora a IA vai acabar com décadas de pesquisa farmacêutica cara e demorada. Cada onda dessas produz um punhado de vencedores reais e um oceano de cadáveres corporativos que queimaram bilhões em salários e escritórios com pufe colorido antes de descobrir que descobrir moléculas envolve, quem diria, química, biologia, ensaios clínicos, pacientes reais morrendo ou não morrendo, e uma agência regulatória que não aceita machine learning como substituto de fase três.

Olha, siga o dinheiro. Esses cento e quarenta milhões não caíram do céu, e não vieram do bolso de tio Warren decidindo apostar suas economias em ciência. Vieram de fundos que administram capital que, por sua vez, foi barateado artificialmente por uma década e meia de juros ridículos e expansão monetária desavergonhada. Quando o banco central imprime dinheiro na marra e joga a taxa de juros no chão, esse dinheiro precisa ir para algum lugar, e ele sempre vai para o lugar mais especulativo disponível. Nos anos 2000 foram imóveis americanos com risco maquiado. Nos anos 2010 foram unicórnios de aplicativo que perdem dinheiro em cada transação. Agora são empresas de IA que, num mundo de juros reais decentes, valeriam talvez um décimo do que valem no papel.

E tem outra coisa que ninguém quer falar. A promessa de que a IA vai descobrir remédios mais rápido esbarra num detalhe inconveniente: a parte cara e demorada do desenvolvimento farmacêutico nunca foi a descoberta da molécula. Foram os ensaios clínicos, a burocracia regulatória, o tempo de acompanhamento de pacientes, os processos judiciais quando algo dá errado. Podem-se gerar dez mil candidatos moleculares por dia num cluster de GPU, mas cada um deles ainda vai levar de dez a quinze anos e um bilhão de dólares para chegar ao balcão da farmácia, se chegar. A promessa de "revolucionar" a indústria via IA ignora exatamente onde o custo mora, que é justamente na parte que nenhum algoritmo consegue acelerar porque envolve corpo humano, tempo biológico e um Estado regulador que se move na velocidade da tartaruga sindicalizada.

Aqui é onde a história fica interessante para quem presta atenção. Quando uma empresa dessas quebrar, e algumas vão quebrar, os prejuízos serão socializados de alguma forma criativa. Os fundos de pensão que apostaram nesse tipo de coisa vão bater na porta do contribuinte. Os bancos que financiaram alavancagem vão pedir bailout. Os empregados demitidos vão para o seguro-desemprego. Só que os oitocentos milhões de avaliação de hoje, quando eles existiam, foram para bônus de executivo, apartamento em Londres, jantar em Dubai e comissão de intermediário financeiro. O lucro é privado, o prejuízo é do coletivo. É o velho arranjo, apenas com hardware novo.

Me diz uma coisa: se essa empresa é tão promissora, tão revolucionária, tão indiscutivelmente o futuro da medicina, por que ela precisa do dinheiro dos outros? Por que os fundadores não hipotecam suas casas, pegam empréstimo pessoal, apostam a família inteira nisso? Porque no fundo eles sabem o que qualquer camponês analfabeto sabe: apostar dinheiro que não é seu é o esporte mais divertido que a civilização já inventou. E o mercado de capitais, do jeito que foi distorcido pelas décadas de dinheiro fácil, virou um cassino permanente onde a casa sempre ganha e a casa é sempre quem está mais perto da impressora de dinheiro. A Basecamp pode até descobrir a cura do câncer. Torço para que descubra. Mas oitocentos milhões pela hipótese, antes do teste, é o retrato exato de uma economia que perdeu a capacidade de distinguir preço de valor, e essa perda sempre, sempre, sempre termina do mesmo jeito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.