A Battalion Oil, empresa texana de exploração de petróleo, acaba de sair da lista de inadimplentes da Bolsa de Nova York depois de meses penando para regularizar suas obrigações de reporte financeiro. Traduzindo do economês para o português cristão: a companhia atrasou os relatórios que todo acionista tem direito de ler, foi notificada, entrou no purgatório dos non-compliant, correu atrás, entregou o dever de casa, e agora volta ao convívio dos que jogam pelas regras. Fim da história? Não. O interessante é justamente o que essa história rotineira ensina sobre um mecanismo que a maioria dos brasileiros nunca viu funcionar de perto.

Olha, uma bolsa de valores séria opera com uma premissa elementar: quem quer o dinheiro do outro precisa mostrar o que está fazendo com ele. Simples assim. Você quer captar poupança popular para financiar poços de petróleo? Ótimo, abra os livros, publique o balanço na data combinada, submeta seus números ao escrutínio dos auditores e do público. Atrasou? Some da vitrine. Não é vingança, é higiene. E é exatamente esse mecanismo automático, impessoal, que impede que a companhia escorregue sem que ninguém perceba. Ninguém precisou de ministro, comissão parlamentar, CPI ou intervenção federal. O sistema, funcionando espontaneamente, cobrou a conta.

Compare isso, me diz uma coisa, com o que acontece quando uma estatal brasileira atrasa balanço, esconde prejuízo bilionário ou fabrica lucro no papel para agradar o padrinho no Planalto. O que acontece? Nada. Rigorosamente nada. O presidente da empresa é amigo do presidente da república, o conselho é loteado por partidos, o auditor tem medo do próprio parecer, e o contribuinte, que é o acionista involuntário de toda essa palhaçada, descobre o rombo cinco anos depois, quando já não há mais o que recuperar. A diferença entre uma bolsa que expulsa quem atrasa relatório e um Estado que abraça quem quebra empresa não é técnica, é civilizacional.

E aqui vale seguir a trilha do dinheiro, porque é onde a história fica saborosa. O acionista da Battalion Oil, ao ver a empresa entrar em non-compliance, tem duas opções concretas: vender a ação e cortar o prejuízo, ou apostar que a gestão vai se ajeitar. Essa decisão, tomada por milhões de pessoas simultaneamente com seu próprio dinheiro na linha, precifica o risco em tempo real. É informação sendo processada por quem tem pele em jogo. Já o cidadão que financia via imposto uma estatal deficitária não tem opção nenhuma: paga, cala e vê o buraco crescer, porque a decisão de manter aquela empresa aberta foi tomada por gente que não arrisca nada de seu bolso e ganha politicamente com o arranjo.

A moral da fábula texana é constrangedora justamente porque é banal. Não há genialidade nenhuma no fato de a Bolsa de Nova York expulsar quem descumpre regra e readmitir quem se emenda, é o comportamento mínimo esperado de qualquer instituição séria. O que impressiona é como esse mínimo se tornou, para os padrões brasileiros, um patamar de perfeição inatingível. Aqui, o descumprimento vira negociação, a negociação vira exceção, a exceção vira regra, e a regra vira letra morta. Quando o mercado pune sem pedir licença, chamam de crueldade neoliberal; quando o Estado protege incompetentes com dinheiro alheio, chamam de política industrial.

No fundo, o pequeno drama da Battalion Oil escancara uma verdade que ninguém no debate público brasileiro quer encarar: instituições que funcionam são chatas, previsíveis, impessoais e, por isso mesmo, insubornáveis. Instituições capturadas são calorosas, flexíveis, humanas e, por isso mesmo, corruptas até o osso. Escolha seu veneno. Bolsa que expulsa por atraso de relatório constrói prosperidade. Estado que perdoa por amizade constrói ruína.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.