O Banco Central anunciou para esta sexta-feira dois leilões de linha somando até um bilhão de dólares, e a imprensa especializada trata a manobra como se fosse notícia técnica, quase administrativa, coisa de mesa de operação. Não é. É o mesmo remédio que se aplica há décadas toda vez que o câmbio começa a mostrar o que a realidade fiscal já gritava havia meses. Vende-se dólar da reserva com compromisso de recompra futura, injeta-se liquidez artificial no mercado, o dólar recua uns centavos na tela da Bloomberg, e os analistas de banco batem palma para o "sinal firme da autoridade monetária". Firme para quem, cara pálida.
A reserva internacional não é dinheiro do Banco Central. É reserva construída ao longo de décadas com superávit comercial suado, com juro real altíssimo pago pelo contribuinte para atrair capital externo, com sacrifício de gerações que apertaram o cinto para o país ter almofada em momento de aperto. Quando a autarquia decide leiloar um bilhão para segurar cotação, está usando patrimônio coletivo para consertar problema que o próprio governo criou com gastança fiscal, com estatização disfarçada, com sinalização de que a âncora fiscal é ficção literária. Quem paga essa conta não aparece na manchete. Aparece na inflação do mês que vem, no juro da prestação, no preço do supermercado.
Repare no arranjo perfeito. O Tesouro gasta como se não houvesse amanhã, aprova crédito extraordinário, expande subsídio para setor amigo, empurra dívida para o futuro. O mercado percebe o risco e cobra prêmio no câmbio, coisa natural, é assim que o preço transmite informação. Aí entra o Banco Central com o extintor, apaga o sintoma, e o incêndio continua queimando o porão. No dia seguinte, o mesmo governo que causou a pressão vai à tribuna dizer que a autoridade monetária "atuou com eficácia" e que "os fundamentos estão sólidos". Sólidos como gelatina em pleno verão carioca.
E tem o detalhe que ninguém comenta: quem lucra com esse leilão. Não é você, que está do outro lado do balcão do banco tentando trocar reais por dólar de viagem pagando spread de assalto. São as grandes tesourarias, os fundos que já estavam posicionados esperando exatamente essa intervenção, os operadores que ganham dos dois lados da mesa porque conhecem o script antes do público. Segue-se o dinheiro e se encontra o de sempre: o pequeno paga o imposto inflacionário, o grande arbitra a intervenção estatal. É capitalismo de compadrio vestido de política monetária, com verniz de tecnicalidade para o povo achar que é assunto complicado demais para opinar.
O que se vê é o bilhão de dólares oferecido, a manchete tranquilizadora, a cotação recuando alguns tostões. O que não se vê é a reserva encolhendo, o custo de oportunidade do dinheiro parado em compromisso de recompra, a sinalização perversa de que o governo pode continuar gastando porque a autarquia sempre estará lá com a torneira aberta para amortecer as consequências. Cada intervenção dessas adia o ajuste, e ajuste adiado é ajuste que cobra juro composto quando finalmente vem. E vem. Sempre vem.
A solução para câmbio pressionado não sai de mesa de operação, sai de ajuste fiscal de verdade, de reforma que reduza o Leviatã em vez de alimentá-lo, de sinalização de que o país respeita contrato, propriedade e moeda. Enquanto isso não acontecer, todo leilão de linha é morfina em paciente terminal que se recusa a operar o tumor. Faz efeito por algumas horas, cria a ilusão de melhora, e a doença segue avançando por dentro. Um dia a reserva acaba, a morfina acaba, e sobra o diagnóstico que se recusou a olhar. Nesse dia, ninguém vai dizer que avisou. Mas está avisado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.