O comunicado é digno de museu. O Banco Central Europeu, o mesmo que passou anos empurrando juros negativos, comprando dívida pública aos rodos e inundando o continente de euros criados do nada, agora aparece de terno engomado para explicar que a inflação está mais teimosa do que o previsto porque, veja você, a energia anda cara. É como o bombeiro que ateou o fogo chegar depois com a mangueira e cobrar hora extra. A senhora presidente da autoridade monetária fala em choque, em fatores externos, em ondas de custo, em tudo aquilo que serve para desviar o olhar do único fator que realmente importa: durante dez anos consecutivos, o balanço do BCE inchou até virar caricatura, e agora a conta chegou no supermercado, na conta de luz e no aluguel do trabalhador que nunca votou nessa festa.

Chamar isso de choque energético é preguiça intelectual ou desonestidade, escolha uma. A energia encareceu, sim, mas ela encareceu em euros que valem menos porque foram fabricados em quantidade industrial para financiar governos que gastam mais do que arrecadam. Quando se despeja moeda no sistema sem lastro em produção real, cada unidade dessa moeda passa a comprar menos coisa, e a coisa que ela deixa de comprar primeiro é justamente aquela que depende de contratos longos, investimento pesado e capital escasso. Energia é o primeiro item da lista, não o culpado da lista. Confundir sintoma com doença é o esporte favorito das autoridades monetárias quando precisam justificar por que erraram por três anos seguidos a previsão que juraram ter sob controle.

Vale seguir o dinheiro, como sempre. A expansão monetária europeia não foi um acidente meteorológico; ela financiou pacotes de resgate, planos verdes bilionários, subsídios industriais, guerras energéticas autoinfligidas por decisões políticas de fechar usinas nucleares que funcionavam para depender de gás importado de regimes hostis. Cada uma dessas decisões passou por um parlamento, foi comemorada por comentaristas de televisão como avanço civilizatório e paga, silenciosamente, por quem ganha em euros e compra em preços que sobem. Agora que a fatura desses genialidades chega em forma de inflação persistente, o discurso oficial descobre que a energia é imprevisível, que o clima é traiçoeiro, que o mundo é complicado. O mundo é complicado, de fato, mas a aritmética não é.

Há algo de patético no ritual em que o próprio incendiário emite comunicados alertando sobre o fogo. O banco central existe formalmente para garantir estabilidade de preços, e passou uma década ativamente sabotando essa missão em nome de objetivos que ninguém votou: sustentar governos fiscalmente irresponsáveis, financiar transições energéticas ideológicas, evitar a purgação natural de bancos zumbis e empresas insolventes que deveriam ter quebrado em 2012. O resultado dessa acumulação de intervenções não é um choque; é uma colheita. Quem planta juros artificialmente baixos por uma década colhe preços artificialmente altos na década seguinte, e nenhum comunicado técnico consegue esconder essa relação de causa e efeito por muito tempo.

O trabalhador europeu, aquele que acorda cedo e paga imposto sobre imposto, é o único que não tem consultor de comunicação para explicar por que o salário não acompanha o preço do pão. Ele apenas sente. Sente que a conta de aquecimento no inverno subiu, que o combustível encareceu, que o mercado ficou mais magro pelo mesmo dinheiro. E, enquanto sente, ouve autoridades falarem de resiliência, de ajuste gradual, de expectativas ancoradas, todo esse dicionário técnico que serve para transformar roubo silencioso em política monetária respeitável. Existe uma palavra antiga e feia para descrever o que acontece quando um governo, por meio de sua autoridade monetária, corrói o poder de compra da moeda para financiar gastança: chama-se confisco. Mudaram o nome, não mudaram a coisa.

O mais irônico é que a solução anunciada será, invariavelmente, mais do mesmo. Alertar sobre inflação persistente vira pretexto para nova rodada de intervenções, novos programas de assistência, novos subsídios energéticos, novas emissões de dívida que o próprio banco central acabará comprando de forma disfarçada. É o ciclo perfeito da servidão administrativa: o Estado cria o problema, cobra pela solução, agrava o problema, cobra de novo, e chama tudo isso de gestão responsável. Enquanto isso, a única coisa verdadeiramente escassa no continente que inventou a liberdade moderna vai se tornando, ano após ano, a própria liberdade econômica de decidir o que fazer com o próprio dinheiro. A inflação não é fenômeno da natureza; é decisão política travestida de fatalidade meteorológica.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.