O anúncio veio embrulhado no papel de presente de sempre, uma empresa chamada BEN lançou uma plataforma de passageiros com inteligência artificial para operar os serviços de shuttle no aeroporto de Los Angeles, o LAX, e a imprensa financeira reproduziu a nota como quem espalha boa nova. Repare no verbo, lançou. Não construiu, não conquistou clientes num mercado disputado, não venceu concorrência aberta, simplesmente lançou. Quando uma empresa lança algo dentro de um aeroporto administrado por autoridade pública, você já sabe que a história começa antes do comunicado à imprensa e envolve reuniões que ninguém filmou.
Aeroporto grande americano é território estranho, um híbrido de monopólio geográfico com concessão política, onde o passageiro não escolhe fornecedor, ele consome o que a autoridade portuária permitiu que existisse ali dentro. Nesse arranjo, dizer que a BEN vai otimizar o embarque de passageiros com IA é mais ou menos como dizer que o cartório da esquina modernizou o reconhecimento de firma com blockchain. A tecnologia pode até ser boa, o problema é que ninguém teve a chance de recusar o serviço, comparar preço ou levar sua van para o mesmo meio-fio. O consumidor é cativo e a inovação é imposta de cima, o que já retira dela metade do mérito que a palavra inovação carrega quando nasce no mercado de verdade.
Siga a trilha do dinheiro e o quadro fica mais claro. Toda plataforma vendida a operação aeroportuária vira, na prática, uma taxa embutida na tarifa do shuttle, um custo agregado ao contrato de concessão, um item no orçamento que o passageiro pagará sem saber. Chamam isso de eficiência porque a fila anda dois minutos mais rápido, e escondem que dois minutos de fila mais curta custaram alguns milhões em software, licenças, integração, consultores e o inevitável squad de gente jovem falando em roadmap. Aquilo que se vê é o embarque suave, aquilo que não se vê é a lista de fornecedores menores que jamais teriam capital para bancar a mesma plataforma e portanto foram silenciosamente excluídos do jogo.
Há algo ainda mais interessante quando a novidade envolve inteligência artificial dentro de um aeroporto. IA em shuttle significa dados, e dados de deslocamento de passageiros são um dos ativos mais cobiçados do planeta, quem viaja, para onde, com que frequência, em que horário, com quanto de bagagem, acompanhado de quem. O anúncio fala em experiência do passageiro, o contrato provavelmente fala em coleta e tratamento, e o balanço da empresa dirá em algum trimestre que a receita cresceu graças a parcerias analíticas. O turista que só queria pegar uma van para o hotel virou, sem assinar nada relevante, matéria-prima de um modelo estatístico. E ainda achou legal porque o app mostrou o ícone bonito.
O ponto de fundo, no entanto, não é a BEN, é o padrão. Toda vez que um serviço trivial, que funcionaria com um sujeito de prancheta apitando horário de van, é reembalado como plataforma de IA dentro de uma estrutura monopolizada pelo poder público, você está diante de uma pequena obra-prima do capitalismo de compadrio, aquele em que a empresa privada vende ao Estado uma solução tecnológica para um problema que o próprio Estado criou ao restringir a concorrência. Não é livre mercado, é feira de fornecedor, e o único participante que não tem voz é justamente aquele em nome do qual a coisa toda foi supostamente feita, o passageiro pagante.
Chame de inovação se quiser, mas guarde o vocabulário para quando alguém, num mercado aberto, arriscar capital próprio, disputar cliente na unha e sobreviver sem contrato de concessão. Enquanto isso, o que temos no LAX é o velho arranjo com nome novo, algoritmo caro para tarefa simples, monopólio disfarçado de eficiência, e um turista americano acreditando que finalmente entrou no futuro porque uma tela lhe disse em qual poste esperar a van. O futuro, esse coitado, continua sendo aquilo que acontece quando ninguém pede autorização para inventar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.