O Berenberg acordou de manhã, olhou para o gráfico da Eli Lilly e decidiu que já era hora de admitir o óbvio: a molécula do tirzepatida, vendida como Mounjaro e Zepbound, é a maior mina de ouro farmacêutica desde que a Pfizer inventou o Viagra. A recomendação subiu, o preço-alvo subiu, os analistas se benzeram. E o motivo é sempre o mesmo, aquele que ninguém quer dizer em voz alta na sala de reunião: metade do mundo desenvolvido come mal, se move menos ainda, e agora encontrou uma agulha semanal que faz o problema desaparecer sem precisar largar o hambúrguer. É o sonho farmacêutico transformado em fluxo de caixa recorrente.
Repare no que está acontecendo, porque é bonito de ver do ponto de vista do capital e sinistro do ponto de vista civilizacional. A obesidade, que durante décadas foi tratada como falha de caráter, virou doença crônica reembolsável. E doença crônica reembolsável, na linguagem de Wall Street, significa cliente cativo até o túmulo. Não é remédio de tomar por um mês e curar, é injeção semanal que, se parar, o peso volta com juros. O modelo de negócio é assinatura vitalícia, e o assinante paga em dólares fortes, com plano de saúde bancando ou com o próprio bolso quando o plano nega.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. O governo americano, via Medicare, está sob pressão brutal para incluir esses remédios na cobertura. Se incluir, o contribuinte americano vai financiar bilhões em canetas semanais para uma condição que, na esmagadora maioria dos casos, se resolveria com trinta minutos de caminhada e menos refrigerante. Se não incluir, cria-se a narrativa de que o pobre está sendo discriminado no acesso ao milagre. De qualquer maneira, quem ganha é o acionista da Lilly e da Novo Nordisk, que hoje dividem o duopólio mais lucrativo da indústria. O resto da farmacêutica global olha e chora.
Há um detalhe que os relatórios de banco não mencionam, mas que qualquer pessoa com dois neurônios funcionais consegue enxergar. Estamos criando uma geração inteira dependente de uma injeção para funções que o corpo humano executa sozinho há duzentos mil anos: sentir saciedade, regular apetite, queimar o que come. Terceirizamos para uma multinacional dinamarquesa-americana aquilo que a vovó chamava de força de vontade. E o mercado, esperto como sempre, entendeu que vontade fraca é o commodity mais abundante do século vinte e um. Basta embalar em caneta descartável e cobrar mil dólares por mês.
O Berenberg está certo no que diz respeito ao papel. A Lilly vai continuar subindo enquanto a fila de espera pelo Zepbound der volta no quarteirão, enquanto a fábrica de Indianápolis não conseguir dar conta da demanda, enquanto cada novo estudo mostrar benefício cardiovascular, renal, hepático, e o próximo mostrar que também previne Alzheimer, câncer e talvez calvície. Cada indicação nova é um novo mercado, e cada mercado novo é mais uma década de royalty. Isso não é bull case, é aritmética.
O que fica sem resposta é a pergunta que o capital nunca faz porque não é do seu interesse fazer. Quando uma sociedade inteira precisa de tecnologia farmacêutica para não se autodestruir comendo, essa sociedade está saudável ou está no estágio terminal de algo que começou muito antes, quando trocamos comida por ultraprocessado, movimento por tela, disciplina por conveniência? A Lilly não criou o problema, ela apenas fatura o sintoma. E vai faturar muito, porque o sintoma, esse sim, é estrutural.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.