A Berenberg elevou a recomendação da Eli Lilly citando a força colossal da empresa no mercado de obesidade, e o setor inteiro reagiu como se fosse revelação profética. Não é. Qualquer um que ande pela rua, entre num supermercado ou olhe uma estatística de saúde pública dos últimos trinta anos já sabia que a obesidade virou pandemia silenciosa nos países ricos e emergentes. O que a Lilly fez foi apenas o óbvio: transformou tragédia sanitária coletiva em negócio de centenas de bilhões de dólares. E o banco alemão, com o atraso de sempre, agora recomenda comprar as ações da empresa que já subiu tudo o que tinha para subir.
Olha, vale seguir o dinheiro nessa história, porque a trilha é reveladora. As mesmas agências governamentais que por décadas empurraram pirâmide alimentar cheia de carboidratos processados, que subsidiaram milho, soja e xarope de glicose até saírem pelo ladrão, que perseguiram gordura natural e beatificaram margarina industrial, são hoje as mesmas que aprovam e regulam os medicamentos milagrosos que prometem desfazer o estrago. A conta fecha redonda: o Estado quebrou o joelho do cidadão vendendo caramelo barato e agora vende muleta cara pela mesma janela. E o contribuinte paga duas vezes, uma no subsídio agrícola e outra no plano de saúde que cobre a semaglutida.
Existe algo de profundamente perverso em transformar sintoma em mercado sem tocar na causa. Ninguém quer discutir por que uma sociedade inteira precisou de injeção semanal para não se autodestruir comendo. Discutir isso exigiria olhar para o que não se vê: os incentivos torcidos, a indústria de ultraprocessados protegida por lobby, a agricultura industrial dopada de subsídio, a orientação nutricional oficial que envelheceu mal e nunca foi revista com honestidade. É mais fácil, e infinitamente mais lucrativo, empurrar o problema para a farmácia. O boom da Lilly não é vitória da ciência, é atestado de falência de um modelo inteiro de política pública alimentar.
E há a questão do preço, que ninguém quer olhar de frente. Uma caneta de tirzepatida custa o salário mínimo de vários países. O acesso vira privilégio, e os governos, sempre generosos com o dinheiro alheio, já começam a fabricar programas para subsidiar o medicamento com verba pública. Ou seja, o mesmo contribuinte que financiou o milho barato que engordou o vizinho agora vai financiar a injeção que emagrece o vizinho. É a espiral clássica: a intervenção original criou o problema, e a nova intervenção pretende resolver o problema criando outra distorção maior, que exigirá terceira intervenção adiante. Ninguém nunca sai desse labirinto porque ninguém no poder tem interesse em sair.
Enquanto isso, o mercado faz o que mercado faz de melhor: precifica realidade. As ações da Lilly não sobem por magia, sobem porque milhões de pessoas em dezenas de países estão dispostas a pagar caro para reverter algo que a alimentação industrial subsidiada lhes vendeu barato. Há justiça poética nisso, e há também tragédia. A empresa não fez nada de errado ao aproveitar a demanda; a demanda é que denuncia o desastre civilizacional. Recomendar comprar Lilly hoje é apostar que a doença vai continuar existindo em escala massiva, e essa aposta, infelizmente, é conservadora demais para dar errado.
No fim, sobra a pergunta que os relatórios de banco jamais fazem: quanto tempo uma civilização sobrevive terceirizando para a farmácia aquilo que antes se resolvia na cozinha, no prato e no bom senso? A resposta o mercado já deu, e está no preço das ações. Quem lucra com sintoma nunca terá interesse em curar a causa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.