O Banco Interamericano de Desenvolvimento decidiu, do alto de sua sede climatizada em Washington, que a Venezuela precisa de um plano de dois anos concentrado no setor elétrico e nas áreas sociais. A escolha do vocabulário é reveladora: fala-se em "plano", fala-se em "áreas fundamentais", fala-se em "cronograma bienal", como se o país que produz um terço do petróleo que produzia em 1998 estivesse sofrendo de um problema de engenharia de projetos, e não de uma catástrofe civilizacional produzida por décadas de expropriação, controle de preços, câmbio múltiplo e impressão desenfreada de bolívares que hoje valem menos que o papel em que foram impressos.

Quer dizer, alguém precisa ter a honestidade intelectual de sentar e explicar como um país que boiava em petróleo, em ferro, em bauxita, em terra fértil, em costa atlântica e em capital humano conseguiu chegar ao ponto de ter apagões diários numa nação que já foi a maior exportadora de energia elétrica do continente. A resposta não está numa planilha do BID. Está no momento exato em que Hugo Chávez colocou o Estado no comando da PDVSA, expulsou os técnicos, encheu a estatal de militares e sindicalistas, e usou o caixa da empresa como cofre pessoal para financiar sua base eleitoral. O que veio depois foi apenas a consequência aritmética de trocar o cálculo econômico pelo cálculo político.

E agora vem o banco multilateral oferecer o quê, exatamente? Empréstimos garantidos por quem? Pelo mesmo Estado que confiscou empresas estrangeiras sem indenização, calotou credores internacionais, e sustenta há mais de uma década um regime que prende opositores e falsifica eleições. Siga o dinheiro: quem paga essa conta são os contribuintes dos países membros do BID, ou seja, o trabalhador brasileiro, argentino, mexicano e americano vai bancar a "reconstrução" de um regime que jamais foi punido pela destruição que promoveu. É o esquema clássico do socorro humanitário virando lavagem reputacional de tirania.

O setor elétrico venezuelano não colapsou por falta de plano de dois anos. Colapsou porque quando o governo fixou tarifas abaixo do custo, a empresa estatal parou de investir em manutenção. Quando parou de investir em manutenção, as turbinas de Guri começaram a quebrar. Quando as turbinas quebraram, o governo culpou "sabotagem imperialista", prendeu engenheiros e colocou generais para gerir a rede. Nenhum pacote de crédito consegue reverter isso enquanto a estrutura de incentivos continuar sendo essa. Você pode injetar bilhões numa hidrelétrica administrada por coronel bolivariano, e o resultado será um coronel bolivariano com dólares no bolso e a hidrelétrica ainda parada.

As "áreas sociais" que o banco quer priorizar merecem um capítulo à parte. Traduzindo do burocratês: mais transferência de renda, mais programa focalizado, mais consultoria internacional, mais ONG comendo overhead. Nada disso toca no problema real, que é a impossibilidade de gerar riqueza num ambiente onde não existe propriedade privada segura, onde o câmbio é ficção, onde o preço não sinaliza escassez, e onde o empreendedor precisa de autorização política para respirar. Aquilo que se enxerga é o programa social bonito no relatório anual. Aquilo que não se enxerga é o pequeno produtor rural expropriado, a padaria fechada por não conseguir importar farinha, o médico que virou motorista de aplicativo em Bogotá.

Existe uma arrogância particular nessa figura do funcionário multilateral que acha que vai desenhar de cima para baixo o que milhões de venezuelanos, se pudessem trocar livremente entre si, resolveriam em poucos anos. O conhecimento necessário para reerguer uma economia não está numa reunião de diretoria em Washington, está disperso entre padeiros, mecânicos, engenheiros, agricultores e comerciantes que sabem, cada um em seu canto, o que precisa ser feito. A tragédia é que esse conhecimento foi sistematicamente aniquilado por um regime que trata o mercado como inimigo e o cidadão produtivo como suspeito. Enquanto o regime continuar de pé, todo empréstimo do BID é adubo em terra queimada.

O que a Venezuela precisa não é de plano bienal. Precisa de moeda que valha alguma coisa, de propriedade que ninguém possa confiscar por decreto, de justiça que funcione, e de um governo que devolva ao cidadão o direito de decidir o que fazer com o próprio trabalho. Nada disso está no documento do BID, e não está por um motivo simples: reconhecer isso seria reconhecer que a solução é menos Estado, e um banco de fomento estatal jamais assinaria embaixo dessa sentença. Continuam vendendo o veneno como se fosse antídoto, e a plateia continua aplaudindo porque não sabe mais distinguir um do outro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.