O bitcoin fechou mais uma semana firme acima dos oitenta mil dólares, com os fundos negociados em bolsa voltando a receber fluxo relevante depois de meses de sangria intermitente. A leitura oficial, aquela que sai nos jornais de negócios com cara de quem descobriu a pólvora, é que investidores estão "buscando diversificação" e "apostando na queda de juros". Traduzindo do economês para o português de gente que paga conta, o que está acontecendo é bem menos técnico e bem mais grave: cada vez mais gente desconfia que o dinheiro que sai da impressora do banco central vale menos amanhã do que valia ontem, e está correndo para qualquer coisa que não possa ser diluída por decreto.

Repare no detalhe que ninguém quer sublinhar. O bitcoin não subiu porque ficou mais útil, mais bonito ou mais rápido. Ele subiu porque a régua com que se mede o preço dele encolheu. Quando você imprime trilhões para tapar rombo fiscal, socorrer banco quebrado e financiar guerra alheia, o preço de tudo que tem oferta rígida sobe em relação ao papel que você acabou de multiplicar. Não é o ouro que fica mais valioso; é o dólar, o euro e o real que ficam mais fracos. A cotação é apenas o termômetro. Quebrar o termômetro não cura a febre, e é exatamente isso que os bancos centrais tentam há uma década.

Siga o dinheiro dos ETFs e a coisa fica mais divertida ainda. Quem está comprando não é mais o adolescente entediado do meme. São gestoras que administram a poupança de aposentados, fundos soberanos, tesourarias de empresas que enxergaram o buraco fiscal americano e resolveram parar de acreditar em promessa impressa. É o mercado adulto silenciosamente admitindo que o rei está nu, sem precisar dar entrevista. Enquanto isso, os mesmos tecnocratas que passaram dez anos dizendo que cripto era coisa de criminoso e de bolha, hoje aprovam ETFs, cobram taxa sobre ganho de capital e tentam regular o inevitável. Ontem era proibido; hoje é tributado. Nunca falha.

Do lado brasileiro, o espetáculo é ainda mais patético. Temos autoridade monetária ensaiando drex, comitê discutindo se cripto ameaça a soberania da moeda nacional, e receita federal salivando com cada operação registrada. Enquanto isso, o real perde poder de compra em silêncio, o preço do arroz sobe, o preço do combustível sobe, e o cidadão comum, que jamais tocou em bitcoin, é o que mais paga o pedágio da farra fiscal. O sujeito que compra satoshi está fazendo, no fundo, aquilo que qualquer camponês fazia enterrando moeda de ouro no quintal quando desconfiava do rei. Muda o suporte tecnológico, não muda a lógica humana.

E tem a fábula favorita do noticiário: a de que o bitcoin sobe "na expectativa de corte de juros". Essa é boa. Traduzindo de novo: sobe porque o mercado sabe que, na primeira crise séria, os bancos centrais vão fazer o que sempre fazem, imprimir mais, chamar isso de estímulo, e passar a conta para quem economiza em moeda fraca. Não é aposta em corte de juros, é aposta em covardia monetária. E covardia monetária, para desespero dos planejadores, é a única coisa que os bancos centrais entregam com pontualidade suíça.

No fim das contas, o preço do bitcoin acima de oitenta mil não é notícia sobre criptomoeda. É notícia sobre a moeda dos outros. É o mercado, esse organismo que agrega milhões de decisões individuais sem pedir licença a ninguém, mandando um recado que nenhum ministro da fazenda quer ler em voz alta: quando o Estado transforma a impressora em política pública, a saída da população vira política privada. E, pelo visto, essa saída acaba de passar dos oitenta mil dólares, sem pedir autorização a Brasília, a Washington ou a Frankfurt.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.