A BMO Capital reiterou avaliação positiva sobre a Primo Brands, a gigante americana de água engarrafada que nasceu da fusão entre Primo Water e BlueTriton, e cravou perspectiva de crescimento sustentado para os próximos trimestres. O relatório vem com a trilha sonora de sempre, sinergias operacionais, expansão de margem, portfólio premium, demanda resiliente. Quer dizer, tudo aquilo que todo relatório de todo banco diz sobre toda empresa que o banco quer que você compre. Nada contra a Primo Brands em si, o problema é a liturgia.

Olha, antes de qualquer coisa, vale lembrar o que é uma recomendação de banco de investimento. Não é profecia, não é ciência, não é sequer análise desinteressada. É produto. O analista que escreve o relatório trabalha para uma instituição que fatura com corretagem, com underwriting, com fusões e aquisições, com empréstimos corporativos. A empresa coberta é, com frequência, cliente ou potencial cliente da própria casa que a avalia. Chamar isso de independência é como chamar de árbitro imparcial o sujeito que torce para um dos times e ainda recebe salário do dono do clube.

Me diz uma coisa, qual é o negócio da Primo Brands? Pegar água, botar em garrafa plástica, transportar centenas de quilômetros, distribuir em supermercado e vender por um preço que, por litro, humilha a gasolina em metade dos estados americanos. Funciona porque milhões de pessoas, livremente, acham que vale a pena pagar por conveniência, por sabor percebido, por hábito ou por desconfiança da água de torneira. Lindo, é mercado em estado puro, cada consumidor votando com a carteira. O que precisa ser dito é que esse modelo depende de duas coisas que nenhum relatório de banco gosta de destrinchar, custo de energia barata para transporte e ausência de regulação ambiental draconiana sobre plástico e captação de aquíferos.

E é aqui que a história fica interessante. Enquanto o analista projeta crescimento, legisladores estaduais nos Estados Unidos engatinham leis contra plástico de uso único, movimentos ambientais pressionam por royalties sobre captação hídrica, e cidades inteiras já processaram engarrafadoras por explorar lençóis freáticos a preços simbólicos fixados há décadas. Siga o dinheiro e você encontra o arranjo clássico, empresa paga centavos pela matéria-prima que o governo precifica politicamente, vende cara ao consumidor final, e lucra na diferença enquanto o custo ambiental fica socializado. Não é capitalismo, é privilégio regulatório fantasiado de livre iniciativa. O mercado genuíno exigiria que a água captada fosse precificada por quem é dono dela, e não por burocrata estadual que renova contrato de cinquenta anos sem leilão.

Há também o detalhe inflacionário que nenhum relatório desses jamais menciona com honestidade. Quando o banco central americano inunda o sistema com liquidez e o dólar perde poder de compra, empresas de bens de consumo defensivo parecem crescer em receita simplesmente porque estão repassando preço, não porque estão criando valor novo. O analista chama isso de pricing power e vende como virtude, o consumidor sente no bolso e chama de carestia. É a mesma receita, dois nomes diferentes dependendo de quem conta a história. Crescimento nominal em moeda que derrete não é crescimento, é ilusão contábil com assinatura de banco respeitável.

Nada disso significa que a Primo Brands seja empresa ruim ou que a recomendação esteja errada em termos técnicos de curto prazo. Significa apenas que o investidor sério não terceiriza o cérebro para analista de banco, não confunde relatório com evangelho e não compra ação porque alguém de gravata em Toronto escreveu que vai subir. O capitalismo funciona quando cada um assume o risco das próprias decisões com informação própria, e não funciona quando viramos rebanho atrás de recomendação paga disfarçada de pesquisa isenta. No fim das contas, água engarrafada é ótimo negócio enquanto o Estado cobrar pouco pela água e muito por tudo mais. Mude essa equação e o relatório vira papel velho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.