O boca de urna do domingo disse o seguinte sobre o Peru: Keiko Fujimori lidera com 16,6% dos votos, e quatro candidatos empatam tecnicamente pelo segundo lugar, com percentuais que variam de 10% a 12,8%. Isso não é resultado eleitoral, é uma cena forense. Um país de 34 milhões de pessoas, um dos maiores produtores de cobre e ouro do planeta, uma das economias que mais cresceu na América Latina nas últimas duas décadas, e a candidata mais votada sequer chega a um quinto dos votos. O Peru não está escolhendo um presidente: está sobrevivendo mais uma eleição.
Pela quarta vez na carreira política dela, Keiko chega à frente no primeiro turno. Quatro vezes. Três derrotas anteriores no segundo turno. Uma ficha que incluiu prisão preventiva, acusações de lavagem de dinheiro, e o peso permanente de um sobrenome que divide o Peru ao meio: o homem que acabou com o Sendero Luminoso e com a hiperinflação, e que depois foi condenado por corrupção e violações de direitos humanos. Carregar esse sobrenome no Peru é como herdar uma casa em que metade dos cômodos está em chamas. E ainda assim ela lidera. O que isso diz sobre as alternativas, você deve tirar a própria conclusão.
Rafael López Aliaga com 12,8%, Jorge Nieto com 11,6%, Ricardo Belmont com 10,5% e Roberto Sánchez com 10%, todos dentro da margem de erro. Um empate quádruplo pelo segundo lugar. Cada um desses nomes representa uma facção do descontentamento peruano, uma tribo com sua própria narrativa de quem destruiu o país. O problema é que quando a fragmentação atinge esse nível, ninguém governa de verdade. O vencedor terá, no máximo, legitimidade de papel. O Congresso será um campo de batalha, o gabinete uma negociação permanente, e o ciclo de impeachments, renúncias e instabilidade que consumiu seis presidentes em menos de uma década simplesmente continuará com outro nome no cabeçalho.
O Peru tem um paradoxo que a imprensa financeira prefere ignorar. No papel, é uma história de sucesso relativo: crescimento anualizado sólido, reservas internacionais robustas, inflação contida em comparação com os vizinhos bolivarianos. Por baixo do papel, dois terços da força de trabalho operam na informalidade total, fora do alcance do fisco e, portanto, fora do alcance do controle estatal. O mercado informal peruano não é sinal de fracasso econômico: é a resposta racional de pessoas que decidiram, cada uma à sua maneira, que o contrato com o Estado está quebrado. Quando o Estado aparece na vida do cidadão comum, aparece para cobrar, complicar ou confiscar. A informalidade não é um problema a resolver; é a solução que o povo encontrou para o problema que o Estado representa.
Em 2021, o Peru surpreendeu o mundo ao eleger Pedro Castillo, um professor rural marxista que chegou ao poder prometendo refundar o Estado e acabou sendo destituído pelo próprio Congresso em 2022, antes de ser preso tentando um autogolpe. Boluarte assumiu e governou sob protestos, mortes e escândalos de joias importadas. O que ficou dessa experiência foi simples: a esquerda radical pegou o poder e o destruiu em tempo recorde. Agora a alternativa ao nome Fujimori é um empate entre quatro candidatos, nenhum com projeto claro, todos com retórica de campanha e nenhum com resposta séria para a questão que importa: como um Estado que falha há décadas pode repentinamente funcionar com outro piloto?
A resposta honesta é que não pode e não vai. A questão mais importante do Peru em 2026 não é quem chega ao segundo turno, mas quanto tempo o próximo presidente dura antes de se tornar o sétimo da série. O cobre vai continuar sendo minerado, os preços internacionais continuarão sendo fixados em Chicago e Londres, a informalidade continuará prosperando nas margens do Estado, e o povo peruano continuará fazendo o que sempre fez: sobreviver à política dos outros. No Peru, a eleição não é o começo de algo; é a repetição de sempre, com novos figurantes e o mesmo roteiro de sempre.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.