O BofA Securities reiterou sua classificação positiva para o MongoDB citando o "enorme potencial de crescimento em inteligência artificial", e o mercado obedeceu como sempre obedece, papagueando a tese, subindo o papel e ignorando qualquer pergunta incômoda sobre o que sustenta essa euforia. Quer dizer, um dos maiores bancos de investimento do planeta bate o carimbo de compra em uma empresa de banco de dados porque IA está na moda, e milhões de investidores tratam isso como profecia divina. Olha, se a análise fundamentalista virou torcida de estádio, ninguém avisou que o campeonato mudou.

A história dos mercados financeiros é uma coleção monótona de manias vestidas de revolução tecnológica. Ferrovias no século dezenove, rádio nos anos vinte, ponto com nos anos noventa, criptomoedas nos anos dez, e agora inteligência artificial. Cada ciclo repete o mesmo enredo: uma tecnologia genuinamente transformadora surge, os fundamentos são reais, e então o dinheiro barato transforma a inovação legítima em cassino coletivo onde qualquer empresa que grude o rótulo mágico dobra de valor da noite para o dia. O MongoDB é uma boa empresa, o produto é sólido, mas a pergunta que interessa é: quanto do preço atual reflete negócio real e quanto reflete narrativa vendida por gente que ganha comissão vendendo narrativa?

Me diz uma coisa, quem financia essa festa toda? A liquidez que empurra ações de tecnologia para múltiplos delirantes não caiu do céu. Ela veio de mais de uma década de juros artificialmente comprimidos pelos bancos centrais, dinheiro criado do nada que precisava encontrar rendimento em algum lugar e acabou inflando ativos de risco até o teto. Quando o dinheiro é gratuito, tudo parece bom investimento. E quando a torneira aperta, descobrimos quem estava nadando nu. A tese da IA não é falsa; a precificação da tese é que virou piada.

Repare no que ninguém mostra na tela quando o analista sorri e fala em potencial de crescimento. Cada dólar que corre para essas apostas concentradas em big techs e queridinhas do momento é um dólar que não vai para empresas menores, para setores produtivos tradicionais, para investimento em infraestrutura real. A concentração de capital em meia dúzia de nomes distorce a alocação de recursos da economia inteira, e essa distorção só é possível porque a moeda perdeu a função de sinalizar escassez genuína. O preço, que deveria ser informação, virou propaganda.

Os grandes bancos de investimento não são clubes de filosofia econômica. São máquinas de originar taxa, colocar papel, mover volume e cobrar comissão em cada esquina do processo. Recomendação de compra vinda de casa que também presta serviços de banking, faz emissões, opera mesas proprietárias e vende produto estruturado para cliente final é um conflito de interesse tão evidente que virou paisagem. Ninguém mais estranha. E quando o ciclo virar, os mesmos analistas que hoje aplaudem estarão emitindo relatórios explicando por que sempre foi óbvio que aquela euforia era insustentável, sem devolver um centavo das comissões que receberam animando a boiada.

A inteligência artificial vai transformar a economia, disso não há dúvida. Mas transformação econômica real acontece em décadas, com vencedores que ninguém consegue prever com precisão hoje, e com um cemitério enorme de empresas que pareciam invencíveis no auge da bolha. Investir na tese é uma coisa; comprar o hype no topo achando que dessa vez é diferente é outra completamente. Toda geração de investidor precisa aprender a mesma lição, e a fatura chega sempre pela mesma porta. O mercado não perdoa ingenuidade, ele apenas cobra a matrícula da escola mais cara do mundo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.