A bolsa de Xangai fechou no vermelho puxada pela sangria das ações de tecnologia, e o mundo financeiro fingiu surpresa. Ora, me diz uma coisa, como é que um mercado sobrevive quando o governo decide, por decreto, quais empresas podem crescer, quais devem encolher e quais precisam ser reeducadas em nome da harmonia social? A resposta está no gráfico de hoje, escrita em letras vermelhas do tamanho de um edifício em Xangai.

Faz alguns anos que Pequim resolveu domar as gigantes do setor, com aquela retórica familiar de combate aos excessos do capital, proteção do consumidor e segurança nacional. Traduzindo do idioma do poder para o idioma dos mortais, isso quer dizer: o partido não tolera concorrentes, nem econômicos, nem informacionais. Cada empresário de tecnologia que ficou rico demais foi convidado a uma conversa. Cada IPO que atraiu capital demais foi cancelado na véspera. Cada CEO que apareceu demais nas capas desapareceu discretamente. O resultado dessa engenharia de gabinete está aí, precificado tick a tick pelos poucos investidores que ainda acreditam que Xangai é bolsa e não vitrine.

O que se vê é a queda de hoje. O que não se vê é o custo acumulado de uma década de intervenção travestida de política industrial. Cada trilhão de yuans que o Estado direcionou para o setor estratégico da vez foi um trilhão que deixou de ser alocado pela sabedoria dispersa de milhões de decisões livres. O planejador central não sabe o que produzir, não sabe quanto produzir, não sabe para quem produzir, e ainda assim insiste em substituir o sistema de preços por planilhas de cinco anos. O boom aparece nos discursos oficiais, o bust aparece no pregão da manhã seguinte.

E siga o dinheiro, porque essa é a parte que os analistas de terno bem cortado evitam mencionar. Cada regulação nova cria um fluxo de rendas: consultores conectados ao partido, fundos estatais que compram na baixa fabricada, empresários alinhados que herdam o mercado do concorrente cancelado. Não é fracasso do modelo, é o modelo funcionando exatamente como foi desenhado. A tecnologia chinesa não caiu por acaso, caiu porque alguém, em algum comitê, decidiu que precisava cair, e outro alguém, em outro comitê, vai lucrar com a queda. O contribuinte chinês paga a conta, o investidor estrangeiro paga o pato, e o cidadão comum recebe a fatura em forma de menos inovação, menos emprego e mais tutela.

A lição vale para quem tem olhos de ver, inclusive por aqui. Sempre que um burocrata anuncia que vai organizar, regular, proteger ou orientar um setor, o que ele está dizendo, com todas as letras, é que vai transferir riqueza de quem produz para quem tem carteirinha do clube. A diferença entre a China e o Brasil não é de natureza, é de intensidade e de sotaque. Aqui se faz com discurso de justiça social, lá se faz com discurso de segurança nacional, mas o mecanismo é idêntico e o desfecho também. Quando o Estado decide os preços, os preços deixam de dizer a verdade, e sem verdade nos preços não há economia, há folclore.

A bolsa de Xangai não desabou por causa da tecnologia. Desabou porque a tecnologia, como tudo mais naquele país, está subordinada ao humor do partido, e o humor do partido é um ativo que ninguém consegue precificar. Enquanto os apologistas do capitalismo de Estado insistem que a China descobriu a fórmula mágica de misturar planejamento com mercado, o pregão vai gentilmente lembrando que essa fórmula tem nome antigo, cheiro conhecido e final previsível. Quem confia na mão visível do burocrata acaba levando um tapa da mão invisível da realidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.