O índice Tadawul afundou no domingo, arrastando consigo Dubai, Abu Dhabi, Kuwait e Doha, depois que os Houthis do Iêmen jogaram uma saraivada de drones e mísseis balísticos sobre Riad e instalações de energia no leste saudita. A Aramco perdeu bilhões em valor de mercado em poucas horas, os prêmios de seguro para petroleiros no Mar Vermelho subiram de novo, e o barril do Brent voltou a flertar com patamares que os ministros das Finanças de meio mundo juravam que ficariam para trás. Quer dizer, o mercado que passou meses precificando "distensão" acordou percebendo que a guerra nunca tinha acabado, apenas mudado de endereço no noticiário.
Olha, existe uma fábula muito querida das mesas de operações segundo a qual petromonarquia é sinônimo de estabilidade. Basta uma dúzia de drones baratos, montados com peças chinesas e engenharia iraniana em garagem iemenita, para desmontar o mito. A Arábia Saudita gastou nos últimos anos mais de cem bilhões de dólares em sistemas de defesa antiaérea de última geração, comprou Patriot americano, THAAD, radar francês, caça britânico, e ainda assim viu explosões em Riad. Não é falha técnica, é lei econômica antiga, aquela que diz que capital defensivo sofre rendimento decrescente enquanto capital ofensivo assimétrico custa uma fração e escala. Um drone de vinte mil dólares obriga o adversário a queimar um interceptador de três milhões. Faça a conta de quem quebra primeiro.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir em rede de televisão. Siga o dinheiro. Quem financia os Houthis é o regime de Teerã, que por sua vez sobrevive vendendo petróleo com desconto para a China através de uma frota fantasma que Washington finge não ver porque precisa do barril chinês fluindo para segurar a inflação americana em ano eleitoral. Quem arma a defesa saudita é o complexo militar-industrial dos Estados Unidos, que fatura tanto quanto mais mísseis explodem no céu do Golfo. Quem paga a conta, no fim, é o consumidor brasileiro no posto de gasolina, o dono de padaria que vê o diesel subir, o aposentado que sente o botijão pesar. Guerra distante nunca é distante quando o insumo é energia.
Existe um exercício mental que todo investidor deveria fazer antes de acreditar em relatório de risco soberano. Pergunte-se o que se vê e o que não se vê. O que se vê é a bolsa saudita caindo três, quatro por cento, manchete vermelha, entrevista de analista dizendo que é "momento de compra". O que não se vê é a cadeia inteira de decisões estatais que produziu esse resultado, os subsídios cruzados que sustentam o preço interno do combustível na monarquia, o dinheiro público queimado em cidades futurísticas no deserto enquanto o vizinho iemenita definha, a diplomacia americana que trocou de lado três vezes na mesma década, o banco central de qualquer país emergente que agora terá que subir juros porque o barril subiu. Cada intervenção geopolítica gera distorção, cada distorção exige nova intervenção, e a espiral segue até alguém quebrar.
O mais irônico é o discurso oficial que virá nas próximas horas. Ministros vão falar em "resiliência", bancos centrais vão prometer "monitoramento", agências de rating vão manter nota porque cortar seria admitir que estavam erradas. Nenhum deles vai dizer o óbvio, que é o seguinte: um sistema econômico dependente do humor de aiatolás, do orçamento militar de príncipes e da bondade de uma rota marítima estreita entre dois continentes não é sistema, é aposta. E aposta feita com o dinheiro dos outros sempre parece segura para quem está apostando.
O petróleo caro que virá nas próximas semanas não é acidente climático nem "choque externo" imprevisível. É a fatura, com juros acumulados, de décadas de arranjos entre governos que preferiram administrar tensão a resolvê-la, porque tensão administrada dá voto, dá contrato, dá comissão. Quando o míssil finalmente cai onde não devia, todos fingem surpresa. A surpresa é a única mercadoria que esses regimes conseguem produzir sem importar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.