O corpo da menina foi retirado dos escombros na tarde de domingo, na Rua Tequici, bairro da Penha, zona leste de São Paulo. Tinha sete anos. Dormia em casa, dentro da própria casa, coisa que até pouco tempo atrás se considerava razoavelmente segura em um país que se autoproclama civilizado. Ao lado, subia um prédio em construção. Na madrugada de sábado, o prédio desabou sobre a casa. A frase é curta porque o escândalo é curto: a estrutura que deveria ficar em pé caiu, e a estrutura que já estava em pé foi esmagada. O restante é retórica de gabinete.
Aqui começa o ritual conhecido. Entram em cena os secretários municipais, com aquele semblante compungido que se ensaia diante do espelho antes das eleições. Prometem investigação rigorosa, força-tarefa, apuração das responsabilidades. Traduzindo do idioma oficial para o português dos vivos: prometem empurrar o caso para o fundo da gaveta assim que a próxima tragédia tomar as manchetes. É sempre a mesma coreografia. Muda o endereço, muda a idade da vítima, o roteiro é idêntico, e o final também.
Convém então fazer a única pergunta que interessa: quem paga e quem recebe? O construtor paga taxa de alvará, ISS, contribuições diversas, e recebe autorização para erguer paredes. A prefeitura recebe o dinheiro, cobra o imposto, carimba o papel, e devolve ao contribuinte a promessa solene de que fiscaliza. Fiscaliza, claro. Fiscaliza tanto que um edifício inteiro conseguiu despencar sobre uma residência sem que ninguém, em nenhum guichê, em nenhuma vistoria, em nenhum momento entre a primeira viga e a última laje, tenha notado nada de estranho. Ou notou, e o problema foi resolvido do jeito habitual, com envelope discreto e assinatura decidida.
A cidade cobra o mais alto imposto per capita do país e entrega, em troca, o serviço mais barato do universo conhecido: a omissão. Cobra-se por segurança, entrega-se soterramento. Cobra-se por planejamento urbano, entrega-se prédio em pé de guerra com casa alheia. Cobra-se por fiscalização, entrega-se enterro de criança. E ainda assim, quando a poeira baixa, o mesmo aparato que falhou aparece como salvador, com sirenes, coletiva de imprensa e decreto de luto oficial. É o incendiário vestido de bombeiro, cobrando cachê pelo espetáculo.
Note-se o detalhe elegante: nenhum servidor será preso, nenhum fiscal perderá o emprego, nenhum secretário devolverá salário. No máximo, algum peão de obra, gente sem sobrenome nem advogado, será oferecido em holocausto midiático para acalmar os ânimos. O engenheiro responsável fará defesa técnica, o construtor terá seguro, a construtora abrirá outra razão social na semana seguinte e continuará erguendo caixotes onde bem entender. O papel, aquele papel lindo timbrado que autorizou tudo, permanecerá válido, arquivado, intocável, protegido pelo mesmo Estado que o emitiu.
Quem paga essa conta, no fim, é sempre o mesmo. É o vizinho que virou nome em cruz. É o pai que enterra a filha antes dos dinossauros de plástico do quarto virarem pó. É a família inteira que vai descobrir, nos próximos meses, que processar a prefeitura é como socar concreto armado com as próprias mãos. Quem recebe também é sempre o mesmo: a burocracia que se alimenta da própria ineficiência, os intermediários que carimbam sem ler, e a classe política que transforma cada desgraça em palanque para pedir mais orçamento, mais poder, mais controle sobre a vida alheia. A tragédia da Penha não é acidente. É modelo de negócio.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.