Paris está eufórica. Startups de inteligência artificial pipocam no Marais, cheques de venture capital atravessam o Sena, jornais falam em "renascimento tecnológico francês" com aquela solenidade que os franceses reservam para vinhos e revoluções. O detalhe inconveniente, que os mesmos jornais mencionam entre parênteses, é que quase todo o capital que sustenta esse renascimento é americano, do Golfo ou asiático. A Europa produz o talento, hospeda o laboratório, e depois observa o dinheiro chegar de fora para colher o que ela mesma plantou. Chamar isso de boom europeu é como chamar de vitória do time da casa o gol marcado pelo atacante emprestado do adversário.
A lacuna de financiamento não caiu do céu. Foi construída, tijolo por tijolo, por duas décadas de regulação obsessiva, tributação punitiva sobre capital de risco, e uma cultura política que trata o investidor privado como suspeito e o burocrata de Bruxelas como oráculo. Quando um continente decide que a prioridade número um é redigir o AI Act antes mesmo de ter uma indústria de IA relevante, o resultado é previsível: sobram diretrizes, faltam dólares. Os fundos americanos vieram porque puderam vir, os europeus não vieram porque não existem em escala. E os que existem estão presos em mandatos pensionistas que exigem "sustentabilidade", "diversidade" e "alinhamento ESG" antes de qualquer retorno. Enquanto isso, no Vale do Silício, o dinheiro pergunta apenas uma coisa: funciona?
Siga a trilha do dinheiro e a história fica mais clara ainda. Os subsídios estatais franceses e alemães, anunciados com pompa em cada cúpula, são migalhas quando comparados ao capital privado que atravessa o Pacífico num único trimestre. E boa parte desses subsídios, quando você abre a caixa preta, termina financiando consultores, comitês de ética algorítmica, seminários sobre governança digital e cadeiras universitárias com nomes intermináveis. O engenheiro que precisa de servidor para treinar modelo continua olhando para o teto e mandando currículo para Palo Alto. O contribuinte europeu paga a conta duas vezes: primeiro no imposto que financia a burocracia, depois no salário que emigra.
Há uma ironia cruel nisso tudo. A Europa passou o século vinte inteiro convencendo o mundo de que o mercado precisa de adulto na sala, que o Estado sabe direcionar melhor os recursos, que o capitalismo anglo-saxão é vulgar e imprudente. Vinte anos de política industrial, planejamento estratégico, campeões nacionais escolhidos a dedo, e o resultado é que o continente que inventou o iluminismo importa inteligência artificial de um deserto californiano e de um emirado no Golfo Pérsico. Quer dizer, a arrogância planejadora finalmente encontrou seu preço, e o preço é a irrelevância. O mercado não perdoa quem tenta substituí-lo por comitê, ele apenas se muda de endereço.
O boom francês, olhado sem os óculos cor-de-rosa da imprensa, é a evidência de que o problema europeu nunca foi falta de cérebro, foi excesso de regulador. Quando a França consegue produzir startups de IA de nível mundial apesar do peso morto tributário, apesar do labirinto trabalhista, apesar do olhar torto para o lucro, imagine o que produziria se removesse metade desses entulhos. Mas remover entulho exigiria admitir que o entulho existe, e admitir que o entulho existe exigiria demitir os arquitetos do entulho, que hoje ocupam cadeiras vitalícias em Bruxelas com salários que fariam corar um banqueiro suíço. Portanto, a lacuna vai continuar. Vai ser discutida em painéis, medida em relatórios, lamentada em editoriais, e financiada com mais impostos para pagar mais estudos sobre por que ela existe.
No fim, a lição que a Europa se recusa a aprender é a mais antiga e a mais simples: capital foge de onde é maltratado e mora onde é respeitado. Não há política industrial, plano estratégico ou cúpula de emergência que reverta essa lei de gravidade. A França está celebrando o que resta de vitalidade num continente que confundiu regular com criar, e que agora descobre, com a cara amassada, que o futuro não pergunta licença ao burocrata para acontecer, apenas escolhe outro código postal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.