O senhor de Garanhuns pisou no púlpito da Assembleia-Geral e disparou a frase de efeito calibrada para render manchete: o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Aplausos protocolares, delegações distraídas, e o discurso escrito para consumo interno, porque lá fora ninguém liga muito para o que o Brasil pensa sobre a ordem mundial. A performance é sempre a mesma; muda apenas o figurino. O curioso é que a mesma boca que rejeita o quintal alheio passa os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano cavando um túnel para o quintal do vizinho ideologicamente conveniente.

Vamos ao concreto, porque discurso de tribuna se derrete no primeiro raio de sol da realidade. O governo que se diz soberano assinou acordos que amarram a infraestrutura crítica do país a uma potência asiática que trata contratos como instrumentos de vassalagem geopolítica. Portos, redes elétricas, telecomunicações, mineração estratégica, tudo sendo passado adiante enquanto o marqueteiro de plantão vende a ilusão de independência. Soberania de verdade não se declama num microfone da ONU; se exerce na diversificação de parcerias, no respeito ao contribuinte que paga a conta, e na recusa a trocar um patrão pelo outro achando que isso é liberdade.

Enquanto isso, o discurso interno mira o inimigo americano da moda, útil para mobilizar a militância nostálgica dos anos setenta. Só que o vizinho do norte, com todos os defeitos que se queira listar, é o destino de metade do agronegócio, o comprador de manufaturados que sustenta empregos reais, e o mercado que precifica o real todo santo dia. Cutucar a onça com vara curta rende curtida no Twitter e prejuízo no porto de Santos. Quem paga a conta do estadista de palanque não é o estadista; é o produtor de soja no Mato Grosso, o industrial em Joinville, o entregador que vê o combustível subir quando o câmbio treme.

Tem também a questão que ninguém quer olhar de frente, aquela que fica encoberta pela retórica altissonante da tribuna. Quem financia a fantasia de projeção internacional? O contribuinte, sempre. Passagens de comitiva, hospedagem cinco estrelas, entourage de conselheiros que produzem parágrafos vazios, embaixadas reabertas em ditaduras falidas para vender fraternidade ideológica. Cada frase pomposa sobre multipolaridade custa algum programa social que não sai do papel, algum hospital sem insumo, alguma escola sem professor. A conta chega, sempre chega, e nunca chega para quem discursa.

O truque é antigo e funciona porque a plateia doméstica quer acreditar. Fabrica-se um inimigo externo abstrato, embrulha-se a incompetência interna num papel de presente chamado soberania, e vende-se o pacote como resistência heroica. Só que soberania não é slogan; é balanço fiscal em ordem, é moeda que se respeita sozinha, é instituição que funciona sem precisar de tutor. Um país que precisa gritar que é soberano geralmente é porque deixou de sê-lo faz tempo, e o grito é apenas o eco da dependência que ninguém quer admitir.

No fim, o discurso da ONU é peça de teatro para consumo doméstico, encenada num palco onde os figurantes internacionais já saíram para o almoço. O Brasil não cabe no quintal de ninguém, é verdade; cabe muito bem, contudo, no bolso de quem sabe explorar a vaidade de seus governantes. E enquanto o presidente ensaia a próxima frase para a próxima tribuna, o quintal vai sendo loteado no atacado, com contrato assinado, escritura registrada e chave entregue. Soberania proclamada em decibéis é soberania rendida em silêncio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.