Reuniram-se em Nova Delhi os chefes do BRICS e, entre apertos de mão e sorrisos ensaiados, pariram mais uma daquelas declarações que ninguém lê, ninguém cumpre e ninguém leva a sério, exceto os assessores de imprensa que precisam justificar a passagem aérea. O tema da vez foi o Oriente Médio, e o pedido, solene, foi por "contenção". Contenção, quer dizer, vinda justamente do bloco que reúne o principal fornecedor de armas do Irã, o maior comprador de petróleo iraniano contrabandeado e o país que mais lucra revendendo combustível russo com desconto de guerra. É como pedir sobriedade ao dono da destilaria.

Olha, quando um governo diz "estamos preocupados com a escalada", traduza mentalmente para "estamos preocupados que a escalada atrapalhe o nosso arranjo". O BRICS não é fórum de paz, é câmara de compensação. Cada declaração conjunta esconde uma planilha de interesses cruzados, e cada vírgula do texto final foi negociada não por diplomatas idealistas, mas por burocratas contando barris, contratos de defesa e rotas alternativas de escoamento. A palavra "multilateralismo" na boca deles significa exatamente o oposto do que a cartilha da ONU vende ao ingênuo: significa cartel.

Me diz uma coisa. Que autoridade moral tem um bloco liderado por regimes que perseguem opositores, controlam imprensa e prendem juízes para lecionar equilíbrio geopolítico ao resto do planeta? A resposta é simples e cruel: nenhuma. O que existe ali é peso econômico somado a fome de protagonismo, e a fome de protagonismo, quando vem desacompanhada de princípios, produz exatamente o tipo de declaração morna que saiu de Nova Delhi. Um texto que condena a violência em abstrato para não ter que condenar nenhum aliado em concreto, que pede diálogo sem nomear quem se recusa a dialogar, que fala em direito internacional sem lembrar que metade dos signatários pisoteia o próprio direito interno.

Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. O petróleo iraniano continua fluindo para refinarias chinesas via frotas fantasmas que ninguém enxerga oficialmente. As armas russas continuam abastecendo aliados de Teerã enquanto o Kremlin recebe pagamento em yuan e ouro para driblar sanções. A Índia joga nos dois campos, comprando barato do russo, vendendo caro ao europeu, e ainda posando de mediador imparcial. O Brasil, coitado, entra na foto porque adora foto, embora não tenha nem petróleo excedente, nem indústria bélica, nem influência real sobre nada que se passe entre Tel Aviv e Teerã. Vai lá para bater palma e voltar com comunicado.

O engraçado, se é que existe graça nisso, é que a imprensa oficial repete a fórmula de sempre. Manchetes solenes sobre "o novo eixo do Sul Global", análises pomposas sobre "a decadência da hegemonia ocidental", como se estivéssemos assistindo ao nascimento de uma nova ordem mundial e não à repetição chinfrim do velho jogo de potências, agora com sotaque diferente. Trocar Washington por Pequim não é emancipação, é rotatividade de dono. E quem paga a conta dessa troca de guarda são sempre os mesmos: o consumidor que verá o combustível mais caro, o contribuinte que financiará a próxima aventura diplomática e o cidadão comum que continuará sem saber por que sua conta de luz subiu.

A verdade nua é que declarações como a de Nova Delhi servem para uma coisa só: dar aparência de gestão a um mundo que ninguém está gerindo. É teatro para plateia distraída, coreografia para câmera lenta, liturgia sem fé. Enquanto isso, os mísseis continuam voando, o petróleo continua subindo e o brasileiro médio continua achando que geopolítica é assunto de outro planeta, quando na verdade é o que define quanto vai custar seu almoço na semana que vem. Paz mundial por decreto de comunicado conjunto tem tanta eficácia quanto reza brava contra terremoto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.