Xi Jinping subiu na tribuna do BRICS para condenar tarifas "arbitrárias" e pedir a rejeição de "todas as formas de protecionismo". Detenha-se um segundo neste espetáculo. Quem fala é o chefe do único regime do planeta que ainda opera com plano quinquenal, que despeja bilhões em subsídios diretos e indiretos nas suas campeãs nacionais, que obriga empresa estrangeira a transferir tecnologia como pedágio de entrada, que mantém o yuan numa flutuação suja controlada por decreto, e que, quando um empresário fica grande demais, faz o sujeito desaparecer por seis meses até reaparecer domesticado. Este é o novo pregador do livre comércio global. Olha, se a hipocrisia tivesse cotação em bolsa, Xangai fecharia em alta histórica.
O truque retórico é velho e funciona porque a plateia quer acreditar. Chama-se protecionismo aquilo que o outro faz; chama-se política industrial estratégica aquilo que eu faço. Trump ergue tarifa e é bárbaro iliberal destruindo a ordem global; Pequim mantém sua economia inteira estruturada num sistema de mercantilismo estatal do século dezessete disfarçado de socialismo com características chinesas, e vira defensora da abertura. A palavra livre saindo da boca de quem controla mecanismo de busca, rede social, câmbio, crédito, movimentação interna de cidadão e sentença judicial só pode ser entendida como o que sempre foi, arma de guerra semântica.
Sigamos o dinheiro, porque é aí que a fantasia se desmancha. O BRICS ampliado é hoje o principal cliente das manufaturas chinesas subsidiadas e o principal fornecedor das commodities que abastecem a fábrica do partido. Cada retórica antitarifária de Xi é, na prática, um pedido para que os outros mantenham as portas abertas ao dumping industrial que o próprio Estado chinês financia com crédito artificialmente barato dos seus bancos estatais. Traduzindo do diplomatês, é o seguinte, deixem meus produtos entrarem sem barreira enquanto continuo escolhendo a dedo o que deixo entrar aqui, e continuo comprando de vocês apenas o que a burocracia central decidir que preciso este trimestre. Chama isto de globalização, se quiser. Sério mesmo é pilhagem organizada com carimbo multilateral.
Há um ponto que os defensores brasileiros do BRICS fingem não enxergar. O verdadeiro livre comércio pressupõe moeda honesta, propriedade respeitada, contrato exequível, empresa que possa falir sem ser resgatada pelo Tesouro e Judiciário que não obedeça ao partido. Nada disto existe no arranjo chinês. O que existe é um capitalismo de compadrio elevado à décima potência, onde compadre é o secretário-geral e o compadrio é executado com câmera de reconhecimento facial em cada esquina. Aliança comercial com este modelo não abre mercado, ata o parceiro menor a uma cadeia de suprimentos politicamente comandada de Pequim. Pergunte à Austrália como foi quando ousou pedir investigação sobre a origem do vírus.
Enquanto isto, o Brasil aplaude, assina, fotografa e volta para casa achando que ganhou geopolítica. Ganhou o quê exatamente? A chance de exportar mais soja e minério bruto para alimentar a industrialização alheia, enquanto nossa indústria apanha do concorrente que joga com dados marcados. É a velha história do país que confunde estar na mesa com estar no menu. E cada vez que um chanceler brasileiro repete o mantra do "mundo multipolar" sem exigir reciprocidade real, propriedade respeitada, câmbio flutuante de verdade, ele está entregando de graça aquilo que qualquer negociador sério cobraria caríssimo.
A moral da fábula é simples e desconfortável. Quem prega livre comércio precisa primeiro praticar em casa. Quem exige do mundo abertura que nega ao próprio povo não é liberal envergonhado, é predador cínico usando o vocabulário do adversário para desarmá-lo. Da próxima vez que ouvir um autocrata defender liberdade econômica, conte os dedos depois do aperto de mão. E, se possível, também o relógio.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.