A cena se repete a cada temporada de conferência em Nova York. Uma companhia de saúde sobe ao palco, mostra slides coloridos com setas apontando para cima, fala em expansão de margem, consolidação de mercado, sinergias operacionais, e a plateia de gestores de fundo aplaude como criança em circo. A BrightSpring Health Services fez exatamente isso na Jefferies, anunciando que o crescimento se amplia, os segmentos de farmácia e serviços domiciliares aceleram, e o guidance vai para cima. O que ninguém no palco tem a coragem de dizer é de onde vem o dinheiro que sustenta essa festa toda.

Olha, quando uma empresa cresce vendendo cuidado para idoso, deficiente e doente crônico nos Estados Unidos, ela não está competindo em mercado livre nenhum. Ela está pescando num lago artificial, cavado a peso de imposto federal, abastecido por dois programas gigantescos chamados Medicare e Medicaid, que juntos torram mais de um trilhão e meio de dólares por ano dos cofres públicos americanos. O crescimento da BrightSpring não é milagre de gestão. É captura de fluxo estatal transformado em receita recorrente, com margem garantida por regulação que barra concorrente pequeno e blindagem tarifária que reajusta automaticamente quando o custo sobe. É o sonho molhado de todo lobista.

Me diz uma coisa. Alguém ali na conferência perguntou quanto do revenue vem de reembolso governamental? Ninguém pergunta porque todo mundo sabe a resposta e todo mundo prefere não sublinhar. O segmento de pharmacy solutions da empresa opera essencialmente como intermediário de medicamentos de alto custo cobertos por programa federal. O segmento de provider services atende populações cujo cuidado é pago quase inteiramente por programa estadual. Cada real de crescimento anunciado na Jefferies é, na prática, um real que saiu do bolso de um contador de Ohio para pagar o dividendo do gestor de private equity que estruturou a operação. A conta é simples, mas ninguém quer fazer em voz alta.

E tem a parte que ninguém enxerga, que é onde mora a coisa mais feia. Cada dólar que o governo americano injeta nesse setor é um dólar que não vai para outra atividade produtiva, é um dólar que sai da poupança privada via imposto ou via dívida que os netos vão pagar, é um dólar que distorce o preço real do cuidado à saúde e mantém todo o sistema americano naquela loucura de gastar dezoito por cento do PIB para ter indicadores piores que país europeu de renda média. O paciente não é cliente, o médico não é fornecedor, e o preço não sinaliza escassez nenhuma. É planejamento central com fantasia de mercado, e a BrightSpring é apenas uma das muitas empresas que aprenderam a dançar essa música.

O detalhe delicioso é que os mesmos analistas que idolatram a companhia na Jefferies costumam ser os primeiros a esbravejar contra "socialismo" quando o assunto é saúde pública. Não percebem que o modelo que enriquece a BrightSpring é exatamente socialismo mal disfarçado, com a diferença cosmética de que o operador não é o Estado diretamente, é um contratado privado que fatura do Estado. O pior dos dois mundos: o custo do socialismo com o marketing do capitalismo. E o pobre do contribuinte, que nunca foi consultado sobre nada disso, financia o esquema achando que está pagando por saúde e na verdade está pagando por lucro contratual protegido por lei.

Enquanto isso, o Brasil observa e copia. Cada operadora de saúde tupiniquim que sonha em fazer IPO em Nova York está estudando esse mesmo manual, adaptado para o SUS e para a ANS. O modelo é conhecido, testado, replicável: capturar fluxo público, blindar via regulação, crescer via aquisição de concorrente menor, distribuir dividendo para acionista lá fora. O crescimento se amplia sempre, sim, mas o que se amplia junto é a fatura que o povo paga sem nunca ter assinado o contrato.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.