O dado é curto e brutal: as buscas no Google sobre o Supremo Tribunal Federal empataram com as buscas por futebol e se aproximam do pico histórico de 2018. Num país onde bola é religião de Estado e o julgamento de um clássico rende mais lenha do que a inflação de alimentos, ver o tribunal disputar cabeça a cabeça com a rodada do Brasileirão não é anedota estatística, é sintoma clínico. Quando o povo abandona a arquibancada para vigiar a toga, alguma coisa muito séria deixou de caber no armário da normalidade institucional.
O gatilho tem nome, sobrenome e balancete: a crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master. Bastou o cheiro de dinheiro rondando o gabinete de quem decide sobre a vida, a bolsa e o voto de setenta por cento do país para o cidadão comum, aquele que nunca leu um acórdão, sacar o celular e digitar as três letras mágicas. E aí vale a velha regra que nenhum manual de direito ensina, mas todo camelô sabe de cor: quando o interesse popular por uma corte suprema alcança o interesse por futebol, ou o futebol ficou muito ruim, ou a corte virou espetáculo, e nenhuma das hipóteses é elogio.
Sigamos a trilha, que é curta e mal disfarçada. De um lado, um banco. Do outro, um ministro com poder de silenciar redes sociais, bloquear contas, prender por decisão monocrática e reescrever o calendário eleitoral com uma canetada. No meio, o dinheiro, esse velho conhecido que nunca aparece nas fotos oficiais mas assina embaixo de todas as decisões relevantes da República. A pergunta que o brasileiro está digitando no Google, mesmo sem formular assim, é a única que importa: quem paga a conta do arranjo e quem recebe o troco? Porque conta sempre existe, e alguém sempre paga, e quase nunca é quem aparece sorrindo na cerimônia de posse.
A sessão de terça-feira promete bater o recorde de 2018, e aqui a memória serve de bússola. Naquele ano, o país descobriu, tarde e a duras penas, que decisões judiciais podem eleger e desemelger presidentes, tirar candidato do páreo, tutelar imprensa e ainda receber aplauso de plateia distraída. O que se anunciava como jurisprudência era engenharia política; o que se vendia como técnica era vontade nua. Passados os anos, o método se sofisticou, o verniz melhorou, o marketing ganhou assessoria, mas a mecânica permanece intacta: concentração de poder num órgão não eleito, blindagem recíproca entre seus membros e a solene certeza de que ninguém, absolutamente ninguém, ousará auditar a auditoria.
Diz a consultoria que o beneficiário político imediato do circo pode ser Flávio Bolsonaro, e faz sentido dentro da lógica do jogo: toda vez que o árbitro é flagrado com o uniforme do adversário embaixo da toga, a torcida oposta ganha bandeira de graça. Mas confundir consequência eleitoral com solução seria cair na mesma armadilha de sempre, aquela que troca de titular sem mexer no vestiário. O problema não é qual sobrenome vai capitalizar a indignação da vez, é a existência mesma de um tribunal com poderes de tal magnitude que uma suspeita de conluio bancário paralisa o país e faz o cidadão pesquisar jurisprudência em vez de ver pênalti. Poder tão grande sempre atrai dinheiro grande, e dinheiro grande sempre encontra caminho até quem decide, é lei tão antiga quanto o comércio.
Quem lucra, no fim das contas, com essa engenharia? O banco que suposta ou realmente pavimentou boas relações, o ministro que virou personagem central da vida nacional, os partidos que transformaram cada decisão em munição de campanha, os comentaristas que faturam por hora de indignação encenada. Quem paga? O sujeito que assiste ao noticiário com o cafezinho ficando mais caro, o pequeno empresário que teve a rede social derrubada por decisão que ninguém explica, o eleitor que descobre que seu voto vale menos do que uma liminar noturna. O placar do Google não é curiosidade passageira, é a plateia percebendo, enfim, que o espetáculo cobra ingresso, e o ingresso é a liberdade que ela achava que tinha.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.