A notícia chega embrulhada em papel de presente. A BYD, gigante chinesa que já engoliu o mercado de carros elétricos da própria China e agora avança sobre a Europa, decidiu que também vai fabricar caminhões, e não só vender: quer produzir localmente, no continente que inventou o caminhão moderno. O anúncio foi feito com aquela pompa executiva de quem descobriu a pólvora, e a imprensa europeia recebeu o recado com a mesma cara de tacho de sempre, entre o encantamento pelo verde e o pânico pela concorrência. Ninguém, claro, pergunta o óbvio: com que dinheiro exatamente essa empresa consegue vender abaixo do custo dos concorrentes há mais de uma década sem quebrar?
A resposta está na contabilidade nacional chinesa, não no balanço da BYD. Quando um Estado despeja subsídio, crédito estatal a juros negativos, terra de graça, energia subsidiada e câmbio manipulado sobre um "campeão nacional", o que sai do outro lado da esteira não é produto: é arma comercial. O caminhão que aparece em Hamburgo com preço 30% abaixo do concorrente alemão não venceu ninguém no mercado; foi financiado pelo camponês de Sichuan que paga imposto para sustentar a política industrial de Pequim. É o velho truque mercantilista com roupa nova, e a Europa, que passou dois séculos escrevendo tratados contra exatamente isto, agora aplaude porque o caminhão emite menos CO2.
Quer dizer, a União Europeia, que multa fabricante alemão por 0,3 gramas de emissão a mais e obriga fazendeiro holandês a matar vaca em nome do clima, agora vai abrir as porteiras para o Estado chinês montar fábrica na Hungria. E abre porque a mesma burocracia que sufoca o produtor local com regulação climática precisa desesperadamente cumprir suas próprias metas de eletrificação da frota pesada, metas que o produtor europeu, esganado por essa mesma regulação, não consegue atender no prazo. É a cobra mordendo o próprio rabo: o regulador cria o problema, o regulador impede a solução doméstica, e no fim o regulador entrega o mercado ao adversário geopolítico. Depois vão dizer que foi o mercado que escolheu.
E aqui está a parte que ninguém quer olhar de frente: instalar fábrica localmente não é gesto de boa vizinhança industrial, é jogada de xadrez de longo prazo. Fábrica local significa emprego local, e emprego local significa lobby local, sindicato local, prefeito local defendendo o interesse do fabricante local, que por acaso é o Partido Comunista Chinês. Em cinco anos, questionar a BYD na Bavária vai ser questionar o gerador de empregos da região. É o mesmo mecanismo pelo qual países se tornam colônias sem que uma única bala seja disparada: a colonização moderna se faz por planta industrial, não por canhoneira.
A ironia é que a Europa tinha, cinquenta anos atrás, uma das mais sofisticadas indústrias de caminhões do planeta, construída sobre engenharia germânica, capital privado paciente e mercado consumidor exigente. Bastaram três décadas de política climática histérica, tributação punitiva sobre diesel, guerra ideológica contra o motor de combustão e regulação escrita por lobista de ONG para transformar essa indústria em pato manco. Não foi a China que derrotou a Scania e a MAN; foi Bruxelas. Pequim está apenas passando a fatura pelo serviço prestado.
O caminhão chinês que vai rodar na autobahn não é sinal de vitória do livre comércio, é o atestado de óbito de uma civilização industrial que resolveu se autoflagelar em nome de uma agenda escrita nos gabinetes de Davos e executada nos parlamentos de Bruxelas. Quando o Estado ataca a própria produção e depois se surpreende ao ver a produção estrangeira ocupando o vazio, não estamos diante de acidente econômico: estamos diante do resultado exato do projeto. E o pior de tudo é que, ao final, quem paga a conta do subsídio chinês somado à regulação europeia é o mesmo sujeito de sempre, aquele que abastece o próprio caminhão, paga o imposto sobre o combustível e um dia acorda descobrindo que a fábrica onde o pai dele trabalhou virou estacionamento de contêineres vindos de Shenzhen.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.