O senador goiano Ronaldo Caiado, candidato declarado à Presidência da República pelo PSD, recebeu alta neste domingo do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, depois de três dias internado por uma faringite aguda. Repita comigo, devagar, para que a absurdidade da frase encontre eco no cérebro: três dias de hospital para tratar uma inflamação de garganta. A doença que a doméstica trata com um comprimido de anti inflamatório antes de pegar o segundo turno de ônibus, o presidenciável trata com internação prolongada na rede hospitalar mais cara do país, boletim médico redigido em prosa quase shakespeariana e nota oficial da assessoria pedindo orações. É a democratização da medicina brasileira, mas ao contrário: uns morrem na fila do SUS aguardando cirurgia de vesícula, outros ocupam suíte presidencial para tratar coriza.

Convém perguntar, porque essa é sempre a pergunta que ninguém faz, quem pagou a conta. Se foi o próprio senador, do próprio bolso, com dinheiro que ele mesmo ganhou antes de entrar na vida pública, ótimo, problema dele, siga o baile. Se foi o plano de saúde do Senado, aquele plano subsidiado por você, contribuinte, que passa três meses tentando marcar consulta de rotina, então já temos uma primeira camada de comédia. E se foi diretamente o Erário, o dinheiro que sai do seu contracheque em forma de imposto que você nunca autorizou explicitamente ninguém a levar, então a comédia vira farsa e a farsa vira ofensa. Boletim médico é ficção regulada, e a ficção mais bem paga costuma ser aquela que a plateia é obrigada a financiar sem direito a exigir reembolso do ingresso.

Há ainda a dimensão teatral do episódio, que ninguém pode ignorar sem perder o riso. Faringite não interna ninguém por três dias. Faringite se resolve com repouso, hidratação, eventualmente um antibiótico se for bacteriana, e volta à vida em 48 horas para qualquer pessoa cuja imunidade não esteja em farrapos. Que um homem que quer comandar um país continental fique três dias hospitalizado por causa de uma garganta inflamada é sintoma de uma de duas coisas, e nenhuma delas anima o eleitor: ou a saúde do candidato é bem mais frágil do que a propaganda oficial sugere, ou o hospital serviu de palco conveniente para exames que não seriam feitos ambulatorialmente porque geram manchete indesejada. Escolha a hipótese que preferir; ambas são reveladoras.

Note também o cerimonial que envolve o adoecimento de um figurão. Boletim médico assinado por três ou quatro sumidades, cada uma com currículo de meia página anexado, como se para tratar amigdalite fosse necessário convocar o corpo docente de Harvard. Assessoria emitindo comunicado a cada 12 horas informando que o paciente está lúcido, orientado, alimentando-se por via oral e evacuando normalmente, informações que ninguém pediu e que ninguém tem direito de saber, mas que servem para manter o nome na mídia durante o fim de semana morto da política. Enquanto isso, o brasileiro comum que precisa de uma tomografia espera oito meses no posto e chama isso de vida.

Há uma lógica implacável em tudo isso que o eleitor precisa aprender a ler. O político não é uma criatura excepcional dotada de saúde superior, virtude superior ou inteligência superior. É um cidadão como você, com a diferença de que descobriu como transformar o próprio corpo em veículo de propaganda e o próprio adoecimento em pauta jornalística. O rei está com a garganta inflamada, e o reino inteiro precisa saber, comentar, torcer, rezar. É a monarquia constitucional das repúblicas presidencialistas latino-americanas, na qual a plebe paga o médico da corte e ainda agradece o privilégio de acompanhar o convalescer real pelo telejornal das oito.

No fim, resta a lição elementar que tantos insistem em ignorar. O candidato que hoje interna por faringite é o mesmo que amanhã prometerá reformar a saúde pública, cortar privilégios e aproximar o palácio do povo. As coisas são o que são, não o que a narrativa quer que sejam, e um homem que trata resfriado como se fosse enfarto dificilmente cortará na própria carne os privilégios que lhe permitem tratar resfriado como se fosse enfarto. Quem paga essa conta é você. Quem recebe o carinho da imprensa, o boletim solene e o voto de solidariedade dos pares é ele. Feito o balanço, sobra o de sempre: uma nação que reza pela garganta do candidato enquanto engasga com a própria.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.