O escândalo, como sempre, começa pela aritmética. Mil oitocentos e vinte e seis publicações favoráveis a Flávio foram catalogadas, contadas, planilhadas e entregues ao Tribunal Superior Eleitoral pela campanha de Lula, com um pedido singelo: que a corte apure, investigue, puna. A denúncia sustenta que os posts ampliaram conteúdo eleitoral, driblaram algoritmos de recomendação e, pecado dos pecados, foram monetizados. Repare no verbo. Monetizados. Alguém ganhou dinheiro dizendo coisas que a campanha governista não queria ouvir, e isso, no vocabulário do poder, virou crime a ser apurado.

Convém lembrar que a mesma máquina que hoje se escandaliza com engajamento orgânico do adversário é a máquina que emprega exércitos de assessores pagos com dinheiro público, controla ministérios inteiros de comunicação, distribui verba publicitária a veículos amigos e mantém uma rede de influenciadores digitais oleada por contratos, editais e benesses cuja transparência beira o folclórico. Quando o algoritmo favorece o palácio, é pluralismo democrático. Quando favorece o outro lado, é desinformação, é milícia digital, é ameaça à República. A régua é elástica, e quem a estica é sempre o mesmo braço.

Siga a trilha do dinheiro, que é onde o santo desmancha. Uma campanha eleitoral pede ao Estado que restrinja a fala de particulares porque esses particulares estão ganhando alcance e, eventualmente, alguns trocados. Ou seja, o partido que ocupa o Executivo, com todo o aparato oficial à disposição, quer que o Judiciário eleitoral force plataformas privadas a desmonetizar, remover ou punir cidadãos que exerceram o incômodo hábito de opinar em rede aberta. O silogismo é brutal em sua simplicidade: quem detém o monopólio da força pede que a força cale quem paga imposto para sustentá-la. Chama-se isso, em qualquer manual honesto, de captura do árbitro.

Há um detalhe técnico que a imprensa oficial finge não enxergar. A tese de que posts espontâneos configuram propaganda eleitoral irregular sempre que ultrapassam um número arbitrário de compartilhamentos transforma cada eleitor engajado em réu em potencial. Se milhares de pessoas resolvem, por conta e risco, defender um candidato nas próprias redes, isso deixa de ser democracia participativa e vira caso de polícia. Note o truque semântico. O que antigamente se chamava boca de urna espontânea, o velho comício de esquina, o santinho no vidro do carro, hoje se rebatiza como operação coordenada, rede de disparo, ecossistema de desinformação. A palavra muda, o objetivo permanece: encolher o espaço em que o cidadão comum pode falar sem pedir licença.

O padrão é antigo e tem manual conhecido. Toda vez que um regime se sente contestado nas ruas digitais, ele descobre uma urgência inadiável de regular, moderar, apurar. Roma tinha censores oficiais que zelavam pelos bons costumes; a monarquia francesa tinha o privilégio real da impressão; qualquer autocracia contemporânea tem sua agência de checagem. Muda o figurino, permanece o instinto. Quem manda quer que só as vozes convenientes ecoem, e para isso não precisa fechar jornal nenhum; basta convencer o tribunal de que engajamento demais, do lado errado, é ilegal. É um golpe elegante, sem tanques, sem transmissão em cadeia nacional. Basta uma petição bem redigida.

Enquanto isso, o cidadão que paga a conta assiste ao espetáculo e é convidado a aplaudir. Seu tributo financia a campanha oficial, financia o tribunal que julgará a queixa, financia os salários dos que redigiram a denúncia e financia, no fim das contas, o próprio silêncio que se pretende impor a ele. Se as urnas ainda decidirem alguma coisa, decidirão a despeito desse arranjo, não graças a ele. E, no dia seguinte à eleição, seja qual for o resultado, uma coisa é certa: quem pediu para calar não vai devolver o troco a ninguém. Contas de censura nunca fecham no vermelho para quem as assina.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.