A cena tem sabor de ironia bíblica. Uma candidata republicana na Flórida, o estado que virou vitrine nacional do bolsonarismo americano, sobe ao púlpito para avisar ao homem forte de Washington que a agenda dele contra imigrantes passou do ponto. Não é uma progressista de Manhattan, não é editorial do New York Times, não é ONG financiada por filantropo bilionário; é gente da tribo, com boné vermelho na gaveta, dizendo em bom e claro que a política de deportação em massa começou a comer o próprio rabo. Quando o aliado grita, é porque o eleitor já está gritando há meses no supermercado, na obra, no restaurante, na plantação de tomate que ninguém mais quer colher por doze dólares a hora.

Vale olhar para o que se vê e para o que não se vê. O que se vê é o espetáculo televisivo do agente federal algemando trabalhador na porta da fábrica, a manchete de força, o discurso de campanha, o troféu de coragem exibido para a base. O que não se vê é o restaurante que fechou porque perdeu metade da cozinha da noite para o dia, a construção civil da Flórida que já opera com trinta por cento a menos de mão de obra, o produtor rural que viu a safra apodrecer no campo, o preço do frango, da laranja, do telhado novo, tudo subindo em silêncio para ser pago por quem votou achando que estava se vingando de alguém. A conta chega sempre, e chega para quem menos podia pagar.

A ilusão de que um decreto assinado numa mesa oval reorganiza a economia real é o mesmo delírio que assombra planejadores centrais desde que o mundo é mundo. Nenhum burocrata em Washington tem a menor ideia de quantas pessoas colhem morango na Califórnia às cinco da manhã, quantos telhados são levantados por hondurenhos em Miami, quantos idosos em casas de repouso na Geórgia são cuidados por venezuelanas que ninguém pergunta o status. O mercado sabe, porque o mercado é a soma de milhões de decisões que ninguém precisou coordenar. Você chuta a peça central do tabuleiro no palanque e finge surpresa quando o jogo desmorona no armazém.

Siga o dinheiro e a história fica menos épica. Empreiteira de detenção com contrato bilionário, fornecedor de tornozeleira eletrônica com margem obscena, consultoria jurídica de deportação faturando por cabeça processada, xerife de condado que descobriu virar celebridade nacional posando ao lado de algemas. A cruzada moral tem folha de pagamento, tem lobby, tem acionista contente com o balanço trimestral. O eleitor da Flórida achou que estava assinando embaixo de patriotismo e assinou uma nota promissória para um cartel de fornecedores federais que ganha por prisioneiro, não por problema resolvido. Enquanto isso, o vizinho que trabalhava honestamente há vinte anos some numa madrugada e a filha americana chora na escola.

A candidata da Flórida não teve um surto de compaixão progressista; teve um surto de aritmética eleitoral. Ela ouviu no comitê de campanha o que a pesquisa qualitativa está gritando: latino trabalhador que votou vermelho em 2024 está reconsiderando, dono de pequeno negócio está furioso, dona de casa está apavorada com o preço do supermercado, evangélico está descobrindo que o vizinho deportado era o irmão da igreja. A base que aplaudia o show de força começou a somar o custo, e a soma não fecha. Nada expõe mais rápido a fantasia autoritária do que o momento em que ela precisa passar pelo caixa.

Há uma sabedoria antiga que diz para não derrubar uma cerca antes de entender por que ela foi levantada. A imigração americana, com todos os seus defeitos e caos, sustentava setores inteiros que ninguém teve coragem de mapear antes de mandar a tropa. Agora o preço aparece no bolso, o aliado começa a pedir recuo público, e o próximo capítulo será a inevitável dança do meio termo, com o mesmo governo que jurava mão de ferro descobrindo exceções para agricultura, construção, hotelaria e cuidados domésticos. Vão chamar isso de pragmatismo. O nome certo é rendição diante da realidade que sempre venceu qualquer decreto. Quem quer governar a economia por decreto acaba governado pelas filas que o decreto criou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.