A cena se repete com a regularidade de missa dominical. Um banco de investimento, no caso a Cantor Fitzgerald, resolve iniciar cobertura de uma empresa de software voltado a engenharia de infraestrutura, a Bentley Systems, e sai batendo o martelo do overweight. O papel reage, o analista aparece na CNBC, o gestor de fundo repete a tese como se fosse revelação divina, e o pequeno investidor entra na festa quando o champanhe já está morno. Isso não é análise de mercado, isso é coreografia ensaiada, e quem chega por último sempre paga a banda.

Olha, ninguém está dizendo que a Bentley Systems é um mau negócio. A empresa vende software para projeto de pontes, ferrovias, redes de água, esse tipo de coisa que precisa existir enquanto houver civilização. O ponto não é a empresa, é o ritual. Cobertura iniciada com overweight é o equivalente moderno do sacerdote apontando qual boi vai para o altar. E o rebanho, dócil, corre para comprar o que o oráculo mandou comprar, sem perguntar por que o oráculo decidiu falar hoje, e não há seis meses, quando o papel estava barato.

Aqui está o detalhe que quase ninguém para para observar. Bancos de investimento não fazem caridade intelectual. Eles fazem market making, colocam clientes institucionais em posições, e depois publicam relatórios que, curiosamente, endossam justamente aquelas posições. É a mesma lógica de quem compra terreno em massa e depois anuncia que o metrô vai passar ali. O que se vê é o carimbo do analista. O que não se vê é o livro de ordens do banco, quem já está comprado, quem precisa que apareça liquidez do outro lado para descarregar posição com lucro. O varejo é sempre o comprador de última instância dessa cadeia.

E há um pano de fundo maior. O setor de software de infraestrutura vive de uma promessa que combina duas coisas irresistíveis para o capital moderno, a digitalização do mundo físico e o gasto público em obras. Toda vez que um governo anuncia pacote de infraestrutura, essas empresas sobem, porque o dinheiro do contribuinte vai financiar, via prefeituras, estados e agências, a compra de licenças de software que projetam as pontes que os políticos vão inaugurar com faixa vermelha. Quer dizer, o cidadão paga imposto, o imposto vira contrato, o contrato vira licença de software, a licença vira lucro, o lucro vira dividendo, e no fim o analista bem pago dá overweight para a empresa que vive desse ciclo. Ninguém mente, ninguém precisa mentir, o sistema simplesmente é assim.

O investidor que quer entender de verdade o que está acontecendo precisa desaprender o vício de tratar recomendação de banco como informação neutra. Não é. É posicionamento, é narrativa vendida no varejo depois de já ter sido consumida no atacado. A verdadeira análise seria olhar para o fluxo de caixa da Bentley, para o quanto do faturamento depende de contratos governamentais, para o quanto da valorização recente é fundamento e o quanto é liquidez despejada pelos bancos centrais em ativos de risco. Mas isso dá trabalho, e o trabalho não cabe na chamada da matéria.

Enquanto isso, o rito segue. Amanhã será outro banco, outra empresa, outro carimbo, outra manada. E o mesmo pequeno investidor que comprou hoje na euforia vai vender daqui a seis meses no pânico, jurando que o mercado é imprevisível. Não é. É previsível demais. O que muda é apenas quem carrega o mico no final.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.