Uma pesquisa AtlasIntel encomendada pelo Grupo ND cai sobre a mesa dos estrategistas palacianos como aquele copo d'água derramado no notebook do chefe: ninguém quer confessar, mas o estrago está feito. Carol De Toni, deputada federal pelo PL, aparece com 28,4% das intenções de voto no consolidado das duas vagas do Senado por Santa Catarina. Traduzindo do estatístico para o português dos mortais: a moça que se recusa a ajoelhar diante do Supremo, que peita a narrativa oficial e que trata ministro togado como servidor público, e não como semideus, lidera a disputa em um dos estados mais produtivos da federação. Alguém, em Brasília, engasgou com o cafezinho.
Convém lembrar quem é o eleitor catarinense antes de fingir surpresa. É o colono descendente de imigrante que rasgou o mato com enxada, o comerciante do Vale que paga oito impostos para vender um parafuso, o industrial de Joinville que sustenta a folha da União enquanto vê Brasília inventar mais uma taxa de fiscalização sobre a fiscalização anterior. Esse sujeito conhece o valor do próprio suor porque conta cada centavo antes de recolher aos cofres federais, cofres esses que depois financiam programas cuja eficácia se mede pelo tamanho da comitiva que corta a fita inaugural. Quando esse eleitor bota 28,4% em uma candidata que se posiciona contra o arranjo, ele não está fazendo protesto adolescente; está exercendo aquilo que sobrou de racionalidade em uma república que se acostumou a chamar de extremismo tudo que não sirva ao andar de cima.
Sigamos o dinheiro, que é o único mapa honesto da política brasileira. As duas cadeiras do Senado catarinense valem, em capital político, muito mais que a soma dos salários e cotas. Valem votos em CPI, valem indicação para tribunal superior, valem controle sobre relatoria de emenda impositiva, valem o poder de travar ou destravar bilhões em transferências. Quem hoje detém essas vagas responde a quem, e para onde flui a torneira? A pergunta é rude, mas necessária, porque cada senador vale, no atacado do orçamento secreto e do rateio de emendas, o equivalente a um pequeno principado feudal. Perder uma cadeira dessas, para quem depende da máquina, não é derrota eleitoral: é interdição da tesouraria.
Daí a comoção mal disfarçada. Observe como a imprensa cortesã já testa os adjetivos: radical, bolsonarista raiz, negacionista, ameaça institucional. É sempre o mesmo silogismo torto que a propaganda de Estado repete desde que o mundo é mundo: quem contesta o poder é inimigo do povo, logo qualquer meio de neutralizá-lo é legítimo. Só que a lógica verdadeira, aquela que não se dobra a manchete, funciona ao contrário. Se uma parlamentar é escolhida por quase um terço do eleitorado de um estado cuja economia sustenta parte significativa da arrecadação nacional, o problema não é ela. O problema é o cartel político que enxerga na preferência popular uma anomalia a ser corrigida por decisão monocrática.
Há uma cena que se repete na história desde os magistrados romanos que legislavam em causa própria até os intendentes coloniais que taxavam a farinha do sertanejo: o poder instalado sempre trata a renovação como sedição. Quando o povo de Santa Catarina insiste em mandar para o Senado quem não faz parte da confraria, o recado é simples e antigo. O contribuinte cansou de pagar a conta do banquete alheio. Cansou de ver o fruto do seu trabalho virar propaganda institucional, benesse para amigo do rei, salário de assessor fantasma, viagem oficial de comitiva turística. E, cansado, começa a votar com a carteira, não com o coração. Isso, para os donos do balcão, é ofensa pessoal.
Resta a pergunta que abre e fecha toda análise honesta desta terra tropical: quem paga e quem recebe? Paga o produtor de maçã de São Joaquim, o metalúrgico de Blumenau, a costureira de Brusque, o pescador de Itajaí. Recebe, hoje, uma engrenagem que se retroalimenta em Brasília e trata voto divergente como ameaça à ordem. Se a pesquisa resistir até outubro, e se o eleitor não se deixar convencer pelo bombardeio moralista que já se anuncia, Santa Catarina vai lembrar ao Planalto uma verdade que essa gente detesta ouvir: soberania popular não é figurino decorativo, é o único freio que resta contra o apetite ilimitado de quem confundiu mandato com propriedade.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.