A cena é deliciosa na sua simetria. Durante anos, uma casta muito específica de repórteres tratou o acesso à Casa Branca como propriedade hereditária, distribuiu perguntas como quem distribui hóstia e chamou de "ataque à democracia" qualquer presidente que ousasse responder com sarcasmo. Agora Trump fecha a porta para CNN, MS NOW e Politico, e essa mesma casta descobre, com espanto genuíno, que o salão nunca foi deles. Era emprestado. E o dono retomou a chave.
Convém separar o que se vê do que não se vê. O que se vê é a manchete indignada, o editorial lacrimoso, o painel de comentaristas anunciando o fim da República pela décima sétima vez desde 2016. O que não se vê é o fato banal de que credencial de imprensa é autorização administrativa, não sacramento. Nenhuma linha da lei obriga o governo a hospedar dentro de casa quem passou anos chamando esse mesmo governo de fascista, golpista e ameaça existencial. Você não é obrigado a servir jantar para quem cospe na sua mesa, e essa verdade elementar escapou completamente de uma profissão que se acostumou a confundir hostilidade militante com dever cívico.
Segue o dinheiro e a piada fica melhor. Esses veículos não são "a imprensa livre" no sentido romântico que eles próprios vendem no autoelogio. São operações comerciais grandes, com acionistas, com folha de pagamento gorda, com relações incestuosas com fundações, com anunciantes farmacêuticos, com contratos governamentais na órbita, com carreiras cruzadas entre redação e assessoria de campanha democrata. Chamar isso de quarto poder é como chamar o departamento de marketing de uma empresa de "voz do consumidor". Quando o freguês que eles atacaram sistematicamente passa a controlar quem entra na loja, o modelo de negócio range. É por isso que o grito é tão agudo. Não é a democracia que sangra, é a receita.
Há também o pequeno detalhe da consistência, essa virtude que hoje parece exótica. Os mesmos veículos que aplaudiram desplataformização em massa, cancelamento de médicos por dizer o óbvio na pandemia, banimento de presidente eleito das redes sociais e verificação de fatos travestida de censura, esses mesmos veículos agora descobriram o valor sagrado do acesso irrestrito, do debate aberto, do pluralismo. A régua era assimétrica. Sempre foi. E quando a régua vira contra quem a fabricou, chamam de tirania aquilo que, aplicado aos outros, era chamado de moderação responsável. É a definição clássica de moralismo de conveniência.
Nada disso, convém dizer, é elogio ao gesto pelo gesto. Um governo que decide caso a caso quem entra e quem não entra concentra poder, e concentração de poder deveria incomodar qualquer pessoa séria, inclusive quando o poder está do lado que ela prefere. A diferença é que o remédio para isso não é o monopólio informal que vigorava antes, com meia dúzia de redações escolhendo o cardápio de perguntas e transformando coletiva em teatro de aprovação. O remédio é imprensa fragmentada, plural, competitiva, sem porteiros disfarçados de guardiões. Mercado, no fim, é a palavra feia que resolve o problema que a corporação jornalística fingiu por décadas não ter.
Sobra o espetáculo. Vão ao Judiciário, vão ao Congresso, vão à ONU se preciso for, vão gravar documentário chorando na porta lateral do prédio. E o público, esse animal que aprendeu a ler entrelinhas depois de tanto ser tratado como criança, assistirá tudo com o mesmo interesse com que assiste novela repetida no fim de tarde. O crachá caiu. A aura junto. Fica a lição, que aliás nunca deveria ter sido esquecida: quando uma instituição confunde privilégio com direito, basta um dia em que o privilégio some para descobrir que direito nunca houve.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.