A CenterPoint Energy, distribuidora de gás e eletricidade que atende milhões de americanos em estados como Texas, Indiana e Ohio, veio a público confessar que dados pessoais de seus clientes foram parar em mãos erradas. E, no melhor estilo das empresas que operam blindadas por concessão pública, adicionou o inevitável parágrafo tranquilizador: os serviços seguem normais. Ora, claro que seguem. O que mais poderia acontecer? O cliente pegar sua caixa de disjuntores e migrar para o concorrente que não existe?

Aqui está o ponto que a manchete corporativa esconde atrás do jargão de "incidente de segurança". Uma empresa que opera em regime de mercado verdadeiro, com competição real, perde clientes quando falha. É punida pelo próprio consumidor, que vota com o bolso e vai para o vizinho. Uma concessionária de energia, protegida por uma teia de licenças, marcos regulatórios, agências reguladoras capturadas e barreiras de entrada erguidas em nome do "interesse público", não sofre absolutamente nada. Vaza dados hoje, aumenta a tarifa amanhã, e continua faturando depois de amanhã. A punição de mercado foi anestesiada pela caneta do burocrata.

E vale a pena seguir a trilha do dinheiro, porque ela sempre desemboca no mesmo lugar. Quem pagou pela infraestrutura de TI que deveria proteger esses dados? O consumidor, embutido na tarifa. Quem pagará pela auditoria pós-incidente, pelas consultorias caras, pelos advogados, pelos serviços de monitoramento de crédito que agora serão oferecidos como cortesia? O consumidor, embutido na próxima revisão tarifária. Quem lucrou com a operação enquanto o sistema era vulnerável? Executivos com bônus atrelados a corte de custos, acionistas com dividendos garantidos por lei, e uma agência reguladora que aprova reajustes como quem carimba passaporte. Prejuízo socializado, lucro privatizado, e o cliente vira estatística num relatório trimestral que ninguém lê.

Existe algo de profundamente perverso no arranjo. O consumidor é chamado de cliente, mas não tem o direito mais elementar do cliente, que é o de dizer não. É chamado de usuário, mas não usa nada por escolha, usa por imposição geográfica. É chamado de beneficiário do serviço público, quando na verdade é o refém de uma estrutura que combina o pior do capitalismo, que é o lucro concentrado, com o pior do socialismo, que é a ausência de responsabilidade. É o famoso capitalismo de compadrio, essa criatura híbrida em que empresa e Estado se abraçam num pacto contra o consumidor, cada um protegendo o outro com o dinheiro dos outros.

Repare também no roteiro previsível que virá pela frente. Haverá audiências no Congresso estadual, políticos indignados posando de defensores do povo, novas regulações prometidas, agências reguladoras pedindo mais orçamento para "fiscalizar melhor", e no fim tudo isso será cobrado, adivinhe de quem, na sua conta de luz. A regulação que falhou vai crescer como resposta à sua própria falha, num daqueles paradoxos que só a burocracia moderna consegue sustentar com cara séria. Mais governo para consertar o problema que o governo criou ao proibir a concorrência. É o médico prescrevendo a mesma droga que causou a doença e cobrando consulta pelo diagnóstico.

A lição que a manchete tenta enterrar debaixo do "serviços seguem normais" é justamente esta. Onde não há concorrência, não há disciplina. Onde não há disciplina, não há segurança. Onde não há segurança, quem paga a conta é sempre o mesmo desgraçado que já pagou por tudo desde o começo. Enquanto o americano médio se preocupa em trocar a senha do seu cartão de crédito, deveria estar se perguntando por que diabos ainda existe um único fornecedor de energia elétrica na cidade dele em pleno século vinte e um. A resposta não está na tecnologia. Está no lobby.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.