John Kao, o comandante da Alignment Healthcare, acabou de encaixar cerca de US$ 7,1 milhões vendendo ações da empresa que ele mesmo dirige. A operação foi registrada nos formulários da SEC como rotina, aquela palavrinha mágica que a imprensa financeira adora repetir para acalmar o rebanho. Rotina para quem, exatamente? Porque para o aposentado da Flórida que comprou a ação da Alignment acreditando no discurso de que a empresa vai revolucionar o Medicare Advantage, ver o CEO se desfazer de milhões em papel não tem nada de rotineiro. Tem cheiro.

Vale lembrar do que se trata a Alignment. É uma dessas empresas que vive praticamente do dinheiro público americano, engordada pelo Medicare Advantage, o programa em que o governo federal paga per capita para operadoras privadas cuidarem de idosos. Ou seja, o negócio não floresce pela genialidade do empresário disputando cliente na rua; floresce porque Washington escreve o cheque, define o preço, define a regra e depois finge que existe mercado. É capitalismo de compadrio com fantasia de startup de saúde. E o CEO, que conhece por dentro cada linha desse contrato com o Tio Sam, decidiu que era hora de trocar papel por dinheiro vivo.

Aqui entra a lição que nenhum analista de banco vai dar ao seu cliente. Existe o que se vê e existe o que não se vê. O que se vê é o comunicado bonitinho, a alegação de diversificação patrimonial, o plano 10b5-1 pré-agendado, todo o vocabulário jurídico criado justamente para tornar respeitável aquilo que, no comércio de esquina, se chamaria de sair pela porta dos fundos antes que o telhado ceda. O que não se vê é a informação assimétrica: o sujeito que assina os balanços, negocia os contratos com CMS e conhece a real taxa de sinistralidade sabe algo que o pequeno investidor da corretora nunca vai saber a tempo.

Some a isso o cenário maior. O governo Trump vem apertando os repasses do Medicare Advantage desde o ano passado, o Departamento de Justiça multiplicou as investigações por upcoding, e o setor inteiro vive de subsídio federal cuja continuidade depende de humor político. Quando o dono do restaurante começa a comer no concorrente, é hora de reler o cardápio. O executivo sênior não vende sete milhões em ações porque acordou querendo comprar iate; vende porque tem visão privilegiada do que vem pela frente e prefere trocar risco por liquidez agora.

E aqui está o ponto que a grande mídia econômica jamais toca. Todo esse teatro só existe porque criamos um sistema em que empresas de capital aberto florescem à sombra de programas estatais gigantescos, com regulação que blinda incumbentes, barreira de entrada que sufoca o pequeno concorrente e um Federal Reserve que inflou tanto o mercado acionário que qualquer papel vinculado a dinheiro público vira aposta atrativa. Retire o subsídio, retire a impressora, retire a captura regulatória, e boa parte dessas empresas voltaria ao tamanho que a demanda voluntária realmente sustenta. O resto é ilusão de ótica financiada pelo contribuinte.

Fica o recado ao leitor que ainda acredita em coincidência. Quando quem está lá dentro vende milhões, olhando o relógio, não é diversificação. É aviso. E quem aprende a ler esses sinais economiza mais dinheiro do que dez cursos de investimento vendidos por influenciador no Instagram. O mercado fala, basta ter ouvido para escutar; e no capitalismo de compadrio americano, o CEO sempre sabe primeiro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.