Terry Duffy, o homem que preside a CME Group, a bolsa que precifica quase tudo o que se come, se veste, se aquece e se financia no planeta, se desfez de aproximadamente quatro milhões e cem mil dólares em papéis da própria companhia. Não foi obrigado, não foi por dificuldade financeira do cidadão, não foi ordem judicial. Foi escolha. E escolha, quando se trata de quem enxerga o motor da máquina por dentro, nunca é dado desprezível. Enquanto o varejo é convidado, dia após dia, por analistas de camisa engomada, a comprar "excelente porta de entrada no setor de infraestrutura de mercado", o próprio capitão pula do convés com um colete salva-vidas cheio até a costura.

Existe uma piada velha, contada em Wall Street desde antes de existir Wall Street, que diz que o único que sempre ganha no cassino é a casa. Pois bem, a CME é literalmente a casa. Toda vez que um fundo de pensão faz hedge de juros, toda vez que um produtor de soja trava preço, toda vez que um especulador aposta em petróleo, uma taxinha cai na mesa dela. É o negócio mais bonito do capitalismo financeiro moderno, um pedágio invisível cobrado sobre o medo e a ganância alheios. Quando o dono desse pedágio decide converter parte da participação em dólar contante, o mercado deveria, por dever mínimo de honestidade intelectual, perguntar em voz alta o que ele está vendo que o restante da mesa não está.

Claro que virão os defensores de plantão explicar, com a paciência de quem fala com criança, que se trata de "diversificação patrimonial", "planejamento sucessório", "exercício de opções programado em calendário 10b5-1". Tudo isso pode até ser verdade em cada linha do formulário, e provavelmente é, porque juridicamente ninguém no topo dessas instituições comete a bobagem de vender fora de janela. Mas o que se vê no papel timbrado nunca é o que interessa. O que interessa é o que não se vê, o cálculo silencioso de quem tem acesso a fluxos de ordem, a spreads, a inadimplência de corretora, a stress test interno, a conversa de bastidor com Federal Reserve. Essa informação assimétrica não aparece em release trimestral, aparece em decisão de portfólio pessoal.

E aí entra a piada mais amarga da festa. O mesmo aparelho midiático que trata como "sinal de alarme" quando o zé-mané da padaria saca o CDB para comprar um freezer novo, trata como "movimentação de rotina" quando um executivo do andar de cima liquida oito dígitos em ações. É o velho truque do camarote e da arquibancada, o que na arquibancada é pânico irracional no camarote é reequilíbrio de carteira. Essa hipocrisia analítica não é ingenuidade, é função. Alguém precisa ficar comprando o papel que os de dentro estão distribuindo, senão o preço cai, e o preço não pode cair porque o bônus do próximo ano depende do preço não cair.

Vale lembrar em que ponto do ciclo estamos. Juros americanos em nível que ainda estrangula tomador, derivativos de taxa e commodities operando em volume recorde justamente porque todo mundo precisa se proteger de choques, dívida pública americana correndo em ritmo de guerra sem que exista guerra declarada. É exatamente o cenário em que uma bolsa como a CME imprime dinheiro como padaria imprime pão. Se nesse ambiente o comandante ainda assim escolhe reduzir exposição pessoal, cabe ao observador atento fazer a única pergunta que a imprensa financeira jamais fará em manchete: o que vem depois do próximo trimestre que justifica trocar participação numa máquina de fazer dinheiro por dólar líquido na conta?

A moral da história é antiga e dispensa complicação. Quando o dono da mina começa a vender picareta, é porque o veio está acabando ou porque ele já viu o desabamento no relatório do engenheiro. Nos dois casos, o minerador contratado por diária faria bem em olhar para a saída antes de tudo mundo lembrar que ela existe. O mercado financeiro é o único lugar onde o cliente aplaude quando o gerente esvazia o caixa e sai andando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.