Michael Intrator, fundador e presidente-executivo da CoreWeave, acaba de vender pouco mais de US$ 25 milhões em ações da companhia que ele mesmo comanda. A operação foi reportada em documento oficial à SEC, aquela burocracia americana que existe justamente para que o pequeno investidor descubra, com atraso e má vontade, o que os donos do negócio já sabiam há semanas. E o que eles sabem é sempre a mesma coisa: o preço lá em cima é bom demais para durar.
A CoreWeave é a queridinha da vez, a empresa que aluga poder computacional para os gigantes que treinam modelos de inteligência artificial, embalada por contratos bilionários com Microsoft, Nvidia e afins. A narrativa é irresistível, o tipo de história que analista de banco adora colar em apresentação de PowerPoint: a nova espinha dorsal da economia digital, o pico e a pá da corrida do ouro da IA, o futuro em forma de galpão refrigerado. Só que enquanto o marketing empurra o entusiasmo para o varejo, o comandante do navio está discretamente transferindo carga para o bote salva-vidas.
Segue o dinheiro e a coisa fica clara. A empresa abriu capital em março de 2025 a US$ 40 por ação, sob suspiros de que seria um flop, e hoje flerta com múltiplos que só fazem sentido se você acreditar que a demanda por GPU vai crescer para sempre em linha reta, sem crise, sem excesso de capacidade, sem uma única bolha estourando pelo caminho. Insiders vendendo em volume não é crime, é sinal. E sinal em Wall Street funciona como aquela fumaça saindo pela janela do vizinho: pode ser churrasco, pode ser incêndio, mas quem tem juízo não fica esperando para descobrir.
O detalhe delicioso, e ninguém vai dizer isso na CNBC, é que boa parte desse boom foi construída em cima de crédito artificialmente barato e de uma expansão monetária que, mesmo depois do aperto do Fed, ainda deixou trilhões circulando à procura de qualquer coisa que pareça inovação. Quando o dinheiro é fácil, todo galpão com um cabo de rede vira unicórnio. Quando o dinheiro aperta, descobre-se que meia dúzia dessas empresas tem contrato de verdade e o resto vive de promessa. A diferença entre a Cisco de 1999 e a Cisco de 2003 não foi a tecnologia, foi a taxa de juros.
Existe ainda o que ninguém enxerga, que é o mais importante. Cada dólar despejado em infraestrutura de IA é um dólar que deixou de financiar outra coisa: uma fábrica, uma pesquisa em biotecnologia, um negócio pequeno que criaria dez empregos duráveis em vez de um estágio de prompt engineer. O boom parece riqueza porque o capital está visível, empilhado em servidores da Nvidia. A destruição, essa fica invisível, distribuída em milhões de projetos que nunca nasceram porque o dinheiro foi todo para o hype. Quando o ciclo virar, e ele sempre vira, a conta chega travestida de recessão, e o cidadão que nem sabia o que era CoreWeave vai descobrir que pagou por ela na inflação, no imposto e no emprego perdido.
Fica a lição para quem ainda acredita que executivo vende ação por motivo trivial, para "diversificar patrimônio" ou "necessidades pessoais de liquidez", aquela ladainha que os departamentos de relações com investidores decoram no primeiro dia de trabalho. Quem constrói uma empresa não se desfaz dela por vinte e cinco milhões a menos que enxergue algo que o mercado ainda não precifica. O comandante não abandona o navio no meio do oceano por capricho. E o passageiro que insiste em confundir palco iluminado com fundamento econômico costuma ser o último a descobrir que a orquestra já parou de tocar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.