Bill O'Dowd, comandante da Dolphin Entertainment, comprou US$ 4.850 em ações da própria companhia e alguém teve a coragem de transformar isso em notícia. Quatro mil e oitocentos dólares. Menos que o aluguel de um apartamento decente em Manhattan, menos que a diária de um hotel razoável em Miami onde a empresa tem sede, menos que muita gente gasta num jantar de aniversário. E ainda assim a máquina de relações públicas do mercado engoliu o anzol e transformou a migalha em manchete, como se o gesto sinalizasse algo além do próprio ridículo.
Quer dizer, existe uma coreografia bem ensaiada nessas horas. Quando um executivo compra ações da empresa que dirige, o script diz que é sinal de otimismo, que ele tem informação privilegiada sobre o futuro, que o investidor comum deveria seguir o exemplo. Só que o script esquece de perguntar o óbvio: quanto ele ganha por ano, quanto já tem em stock options, qual o percentual disso tudo diante da fortuna pessoal. Uma compra de cinco mil dólares por um CEO listado em bolsa é o equivalente estatístico a você jogar uma moeda na fonte pedindo saúde para a família. Bonito, simbólico, sem consequência material nenhuma.
E aqui mora a piada que ninguém tem coragem de contar. O mercado de capitais americano se tornou um vasto teatro de sinais, onde o gesto simbólico substituiu o compromisso real. Executivos recebem pacotes bilionários em ações que depois vendem em programas automáticos programados pelos advogados, e quando compram um punhado insignificante de volta, os jornais especializados publicam como se fosse ato de fé. É a versão financeira daquele político que doa mil reais para uma escola pública depois de aprovar um orçamento que sangra a educação em bilhões. Performance de virtude enquanto a estrutura permanece intocada.
A Dolphin Entertainment, para quem não conhece, é uma dessas empresas de comunicação e entretenimento que vivem da atenção alheia. Faz sentido, portanto, que seu chefe entenda de espetáculo. O que ele comprou não foi participação relevante na companhia; comprou manchete. Pagou quase cinco mil dólares por uma matéria em portal financeiro, por uma linha em relatório de analista, pela ilusão momentânea de que o insider está apostando junto com o investidor de varejo. Marketing barato, no sentido literal da palavra. Nenhum plano de mídia entrega retorno tão eficiente por tão pouco.
Olha, o problema não é o executivo comprar pouco. O problema é o mercado fingir que isso importa. É o mesmo mercado que ignora quando o mesmo executivo despeja lotes gigantescos das próprias ações em vendas programadas, que engole calado quando pacotes de remuneração são renegociados para escapar de metas não cumpridas, que aplaude recompras bilionárias feitas com dívida enquanto o negócio real definha. A cultura do sinalismo substituiu a cultura da análise. Ninguém mais olha para o balanço; todo mundo lê o comunicado.
Me diz uma coisa: se a informação relevante fosse mesmo a compra, por que o valor foi tão simbólico? A resposta é constrangedora. Porque uma compra de verdade, aquela que doeria no bolso do executivo, aquela que representaria fatia significativa do patrimônio pessoal dele, essa não existe mais no capitalismo financeirizado moderno. Existe o show. Existe o gesto. Existe a nota no portal. E existe o pobre coitado do investidor pessoa física que compra a narrativa achando que está seguindo o cheiro do dinheiro esperto, quando na verdade está apenas assistindo à peça de teatro que os figurantes do andar de cima montaram para ele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.