A cena se repete com tanta frequência que virou paisagem, e é justamente por isso que passa despercebida. O executivo-chefe da FormFactor, fabricante americana de sondas para testes de semicondutores, vendeu US$ 1,83 milhão em ações da própria empresa e a notícia foi enfiada num rodapé qualquer de portal financeiro, como se fosse boletim meteorológico. Ninguém para para perguntar o óbvio: se o negócio é tão promissor quanto o próprio CEO passa o ano inteiro repetindo em teleconferências, por que ele mesmo está trocando papel por dinheiro vivo?

Existe uma assimetria de informação nesse tipo de operação que nenhuma corretora quer explicar para o cliente varejista. O sujeito que assina os balanços, que conversa com clientes antes do resto do planeta, que sabe qual pedido vai entrar e qual vai sumir no próximo trimestre, esse sujeito olha para o próprio patrimônio e decide, com todos os dados na mão, que a hora é de sacar. O aposentado de Piracicaba que comprou o mesmo papel pelo home broker às três da tarde não teve acesso a um por cento do que o vendedor sabia. E isso, no vocabulário polido de Wall Street, chama-se mercado eficiente.

Claro que sempre aparece a explicação higienizada, aquela ladainha do plano pré-programado de venda, do rebalanceamento de portfólio, do exercício de opções que vencia mesmo. É a versão corporativa do cachorro comeu meu dever de casa. Pode até ser verdade em alguns casos, mas a estatística é impiedosa, executivos vendem em bloco quando enxergam nuvem no horizonte e compram quando enxergam sol. Não é maldade nem conspiração, é apenas o comportamento previsível de quem tem informação privilegiada dentro de um arcabouço regulatório desenhado para dar aparência de legalidade ao que, em qualquer outra profissão, seria chamado pelo nome que merece.

O setor de semicondutores, aliás, vive há dois anos uma euforia sustentada em promessas de inteligência artificial, subsídios generosos do governo americano via CHIPS Act e uma corrida geopolítica contra a China que garante contratos gordos a quem estiver bem posicionado. Tudo isso jogou os múltiplos das empresas de teste, empacotamento e sondagem para a estratosfera. E é exatamente no topo da onda que quem está por dentro começa a se aliviar do papel, empurrando o risco para quem chegou na festa quando a champanhe já estava morna. A conta desse tipo de saída sempre chega, e nunca chega para quem vendeu primeiro.

Há ainda a questão do incentivo torto que o próprio sistema de remuneração executiva cria. O CEO recebe uma montanha de ações restritas e opções como parte do pacote, empurra o preço para cima com recompras financiadas por dívida barata, e depois converte tudo em dinheiro antes que a maré vire. O acionista minoritário paga a conta duas vezes, primeiro na diluição, depois na desvalorização. É um arranjo tão elegante que só não vê quem não quer ver. E o regulador americano, a famigerada SEC, continua exigindo apenas que o executivo avise depois do fato consumado, o equivalente a pedir que o ladrão preencha um formulário depois de sair da joalheria.

Fica a lição de sempre, aquela que ninguém aprende porque ninguém quer aprender. Quando o dono da fábrica começa a vender ferramenta, é bom desconfiar da encomenda. Quando o capitão do navio compra bote salva-vidas, o passageiro esperto vai atrás. E quando um CEO descarrega quase dois milhões de dólares em papel da própria empresa, o comunicado oficial que fala em diversificação patrimonial deveria vir com legenda em letras garrafais: eu sei de algo que você não sabe, e estou saindo antes de você descobrir.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.