Patrick Gruber, o CEO da Gevo, fabricante de combustíveis renováveis que vive de promessa verde e subsídio federal, vendeu cento e trinta e três mil duzentos e setenta e oito dólares em ações da própria empresa. A operação foi registrada nos formulários obrigatórios da SEC, aqueles que executivos preferiam que ninguém lesse, e revela algo que nenhum release corporativo jamais admitirá em voz alta. Quem está dentro, quem vê os números antes da imprensa, quem senta na cadeira do comando, está convertendo papel em dinheiro vivo. E não é pouco.
Olha, existe uma assimetria de informação tão escandalosa nesse tipo de movimento que deveria envergonhar qualquer regulador que se leve a sério. O sujeito que assina os relatórios, que conhece os números antes do trimestre fechar, que sabe quais contratos estão emperrados e quais subsídios estão por um fio, decide que o melhor uso para os papéis que ele recebeu como remuneração é vendê-los. Enquanto isso, o pequeno investidor que leu a matéria entusiasmada no portal financeiro segue comprando, convencido de que está embarcando no foguete da transição energética. Quer dizer, o foguete existe, mas o piloto já pulou de paraquedas.
A Gevo é, no fundo, uma criatura do dinheiro público. Vive de incentivos para combustíveis sustentáveis, créditos fiscais generosos, empréstimos garantidos pelo Departamento de Energia americano e pela mística verde que transformou cada quilo de etanol de milho em causa moral. Tire o subsídio, e o modelo de negócio derrete como manteiga em frigideira quente. Por isso o gesto do CEO importa tanto: ele conhece a dependência da empresa do humor político em Washington melhor que qualquer analista de banco. Quando ele vende, está dizendo, sem dizer, o que pensa sobre a durabilidade dessa arquitetura de favores.
Me diz uma coisa, em que outro setor da economia um executivo pode receber ações como bônus, financiadas indiretamente pelo contribuinte que paga o subsídio que infla a empresa, e depois vender esses mesmos papéis no mercado embolsando o lucro privado? É o esquema perfeito, socializar o risco e privatizar o ganho, com o detalhe estético de uma boa narrativa ambiental cobrindo a operação. Os custos visíveis são o tanque de etanol e o discurso bonito sobre carbono neutro. Os custos invisíveis são o capital desviado de empresas que sobreviveriam sem mamadeira estatal, o consumidor que paga mais caro na bomba e o contribuinte que financia a festa sem ser convidado.
Os defensores dirão que vender ações é direito do executivo, que há janelas legais para isso, que talvez seja planejamento sucessório, diversificação patrimonial, o cachorro que precisa de cirurgia. Pode ser. Mas a regra da observação séria é simples: julgue as pessoas pelo que fazem, não pelo que dizem. Discursos sobre o futuro brilhante da empresa custam zero centavos para serem proferidos numa conference call. Vender cento e trinta e três mil dólares em ações custa exatamente cento e trinta e três mil dólares de exposição ao risco que o próprio CEO acabou de transferir para outro otário. Ações falam mais alto que slides de apresentação.
A lição vale para muito além da Gevo. Toda vez que um setor depende de generosidade governamental para existir, o investidor sensato deveria observar com lupa quem está comprando e quem está vendendo entre os que conhecem o jogo por dentro. O capitalismo de compadrio produz balanços bonitos enquanto o subsídio dura, e cadáveres financeiros quando a torneira fecha. Os insiders sabem ler o calendário político. O varejo, coitado, ainda está lendo a manchete de ontem.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.