O executivo-chefe da Neonc Technologies acaba de comprar US$ 174.795 em ações da própria empresa, e a manchete deveria bastar para acender uma lâmpada na cabeça de quem ainda acredita nos oráculos de terno da CNBC. Existe um princípio velho, sujo e imbatível no mercado de capitais, o de que executivos podem vender ações por mil motivos, do divórcio ao apartamento novo, mas compram por um motivo só, porque acham que vão ganhar dinheiro. Quando o cara que lê os relatórios internos antes de qualquer analista externo decide sacar do próprio bolso, aquilo não é gesto de marketing, é aposta pessoal com dinheiro que ele podia ter deixado em treasury americano rendendo sem risco.

Repare no detalhe que a imprensa financeira brasileira, sempre generosa com o que interessa aos anunciantes, prefere embrulhar em jargão. Uma biotech de câncer cerebral, segmento onde nove em cada dez apostas viram pó, tem o executivo principal aumentando exposição justamente no momento em que o mercado de small caps está sendo triturado por juros altos nos Estados Unidos. Ou o sujeito é imbecil, hipótese que ninguém coloca num CEO de empresa listada, ou ele está vendo alguma coisa no pipeline clínico que ainda não virou fato público. A informação assimétrica é a regra do jogo, e fingir que não existe é o esporte favorito dos reguladores.

Agora, quer dizer, olha para o teatro que envolve isso. O mesmo sistema regulatório que obriga a divulgação da compra insider, e ainda bem que obriga, é o mesmo que gasta bilhões perseguindo pequenos investidores por operação de day trade enquanto deixa gestor de fundo bilionário pilotar mercado com informação de gabinete presidencial. A transparência que temos hoje é fruto de décadas de escândalo, não de bondade regulatória, e mesmo assim serve mais para dar munição a advogado do que para nivelar o campo. O pequeno investidor lê a notícia dois dias depois do fato, quando o preço já se ajustou, e paga corretagem para ficar do lado errado da trade.

O ponto que ninguém quer discutir é o que essa compra revela sobre a natureza do capitalismo real, não aquele desenhado nos manuais de faculdade estatal. Empresa não é abstração, não é ESG, não é fluxograma. Empresa é gente decidindo o que arriscar com dinheiro que é seu ou dos outros, e o critério final de quem está acreditando na tese é sempre quem coloca a pele no jogo. O executivo que compra ação da própria firma está fazendo exatamente aquilo que os fundos de pensão pilotados por burocrata concursado deveriam fazer e nunca fazem, alocar capital baseado em julgamento próprio em vez de seguir consenso de comitê.

Enquanto isso, aqui no país tropical, o Tesouro emite dívida a juros de dois dígitos para financiar transferência de renda para eleitor cativo, e o brasileiro médio ainda acha que investir em ação é coisa de rico. É coisa de rico porque o governo tornou coisa de rico, com tributação punitiva, burocracia de corretora, IOF, come-cotas e um sistema que castiga quem tenta poupar em ativo produtivo enquanto premia quem empresta dinheiro para o próprio Estado gastar mal. O CEO americano compra ação da própria empresa. O brasileiro compra Tesouro Direto para financiar o próximo Bolsa Família. Diga qual dos dois países vai crescer nos próximos vinte anos.

Toda vez que aparece uma notícia dessas, a lição está lá, gratuita, e quase ninguém aproveita. O mercado não é cassino, é sistema de informação disfarçado de leilão, e o preço de uma ação carrega assinaturas invisíveis de todos os que apostaram nela, do faxineiro que comprou dez papéis ao CEO que colocou seis dígitos. Quando as assinaturas dos que estão por dentro convergem para a compra, o sinal é mais barato e mais honesto do que qualquer relatório de sell-side pago por banco de investimento. Cabe a cada um decidir se vai ouvir o barulho ou o silêncio de quem realmente sabe.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.