A cena fala mais que qualquer comunicado oficial. Trump recebe Xi Jinping para um jantar de Estado e, entre os convidados, aparece Jensen Huang, o homem que comanda a empresa que fabrica os cérebros da revolução da inteligência artificial. Não é jantar diplomático, é reunião de acionistas travestida de protocolo. O ditador que passou os últimos anos comprando GPU no mercado paralelo e clonando engenheiros da Nvidia agora janta com o fornecedor, sob os holofotes da Casa Branca, com o presidente americano fazendo as vezes de garçom geopolítico. Se isso não é comédia, é porque o roteirista tem senso de humor mais refinado que o nosso.
Olha, todo mundo aplaude quando o Estado "aproxima empresários", mas ninguém pergunta o preço dessa aproximação. O preço é sempre o mesmo: o CEO que janta com o presidente deixa de servir o consumidor e passa a servir o político. A Nvidia não precisa de Trump para vender chip, e Trump não precisa da Nvidia para governar; mas os dois precisam um do outro para o teatro do poder. Huang leva na maleta a promessa de manter Pequim tecnologicamente dependente. Trump leva no bolso a foto que vende como "acordo do século". E Xi leva de brinde o que sempre quis: a legitimação de que os semicondutores americanos são negociáveis nas mãos certas, pela mesa certa, com o telefonema certo.
Quer dizer, existe um detalhe que a imprensa financeira esquece de mencionar quando descreve esses banquetes como "sinal positivo para os mercados". A cotação da Nvidia sobe, sim, mas sobe por quê? Porque investidores entenderam que a empresa produz melhores chips? Não. Sobe porque investidores entenderam que a empresa está do lado certo do balcão político, e que licenças de exportação para a China, restritas em nome da segurança nacional apenas seis meses atrás, vão ser magicamente flexibilizadas assim que o vinho do jantar acabar. É um sinal de mercado, sim, mas o mercado sinalizado não é o de tecnologia. É o de influência.
Me diz uma coisa, quantos empregos americanos e quantos avanços tecnológicos ocidentais foram sacrificados nas últimas duas décadas em nome dessa dança dos executivos com autocratas? A resposta está no que não se vê. Não se vê a indústria de semicondutores europeia que morreu asfixiada pelo excesso regulatório enquanto Washington negociava exceções para seus amigos. Não se vê o engenheiro taiwanês que preferiu Xangai porque a política americana era ambígua demais para confiar. Não se vê o consumidor comum que paga preço de monopólio numa GPU porque as regras do jogo são escritas nos jantares e não nas fábricas. O invisível é sempre o mais caro.
E vem aí o argumento da realpolitik, que sempre aparece para justificar a farsa: "é preciso conversar, é preciso engajar, é preciso manter os canais abertos". Muito bem. Só que a história ensina, para quem quiser ler, que impérios não caem porque cortaram diálogo com rivais. Caem porque confundiram diálogo com submissão, hospitalidade com concessão, banquete com política externa. O jantar de gala com o adversário estratégico sempre foi o momento em que a decadência troca de terno e finge que é diplomacia. Roma jantou com os visigodos, Bizâncio jantou com os otomanos, e todo mundo sabe como aquilo terminou. Ninguém aprendeu, ninguém aprende, ninguém vai aprender.
No fundo, o problema não é o jantar. O problema é a naturalidade com que aceitamos que o chefe da empresa mais decisiva do século XXI cumpra agenda protocolar como se fosse ministro sem pasta. Empresa privada tem donos, tem acionistas, tem clientes. Não tem obrigação nenhuma de compor cenário para presidente americano recebendo ditador chinês. Quando cumpre essa obrigação assim mesmo, é porque entendeu que o retorno vem por baixo do pano, na forma de licença, contrato, benefício fiscal, exceção regulatória. É o capitalismo que dispensa consumidor porque descobriu algo mais lucrativo: o eleitor pagando a conta do banquete que não foi convidado a comer.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.