Shankar Musunuri, o homem que comanda a Ocugen, acaba de embolsar quinhentos e oitenta e nove mil dólares vendendo ações da própria companhia a preços que oscilaram entre um dólar e seis centavos e um dólar e trinta e um. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português direto, o principal executivo de uma empresa de biotecnologia decidiu que era melhor ter dinheiro na conta do que papel na carteira, e fez isso com o papel valendo menos que uma corrida de Uber em bairro nobre. Curioso, não? O sujeito que teoricamente tem mais informação sobre o futuro da companhia é justamente o que apertou o botão de vender.
Existe uma velha regra não escrita nos mercados que diz o seguinte: preste atenção no que os insiders fazem, não no que dizem nas teleconferências trimestrais. E o motivo é elementar, quase infantil de tão óbvio. Ninguém, absolutamente ninguém, conhece melhor as entranhas de uma empresa do que quem senta na cadeira principal e assina os cheques. Se essa pessoa está reduzindo posição a preço de liquidação, existem duas hipóteses razoáveis, e nenhuma delas é boa para o pequeno investidor que ainda acredita nos relatórios de perspectivas otimistas.
A primeira hipótese é que o executivo precisa de liquidez pessoal, e isso é humano, ninguém vai crucificar ninguém por pagar boleto. A segunda, bem mais desconfortável, é que ele enxerga algo no horizonte que o mercado ainda não precificou. E aqui vale seguir a trilha dos números. Uma ação cotada a pouco mais de um dólar é uma ação que já sofreu, que já apanhou, que já perdeu a paciência dos analistas. Vender nesse patamar não é realizar lucro, é reconhecer prejuízo. É admitir, na prática, que o preço atual talvez seja mais próximo do valor real do que os múltiplos otimistas sugeriam meses atrás.
O que se vê na manchete é uma transação corriqueira de mercado, protocolada, comunicada à comissão de valores, tudo dentro da lei. O que não se vê é a mensagem embutida no gesto. Toda vez que um insider vende volumes significativos, ele está entregando ao mercado uma informação que os balanços não entregam, um sinal que os relatórios institucionais nunca vão colocar em negrito. E o pequeno investidor, aquele que compra ação porque leu uma matéria elogiosa em portal de notícias, é justamente o último a decifrar o recado.
A biotecnologia americana está cheia dessas histórias. Empresas que prometem revolucionar a medicina, que fazem apresentações grandiosas em conferências, que sobem duzentos por cento em uma semana quando anunciam uma fase preliminar de teste clínico, e que depois derretem quando a fase seguinte não confirma a promessa. Enquanto isso, os executivos vão realizando pequenas vendas aqui e ali, sempre dentro do prazo legal, sempre com o comunicado adequado, sempre com a explicação corporativa de praxe. E o investidor de varejo, que colocou as economias apostando no próximo milagre farmacêutico, fica segurando o mico até o fim.
A lição aqui não é sobre a Ocugen especificamente, é sobre um padrão que se repete há décadas em todo mercado de capitais. Quando o comandante começa a colocar salva-vidas antes dos passageiros, o passageiro esperto para de comer o jantar servido no salão e vai olhar pela janela. O restante é matemática básica de sobrevivência financeira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.