Vinte e cinco mil dólares. Esse é o tamanho da aposta que o presidente executivo da OppFi fez nas ações da própria empresa, e há gente séria tratando isso como sinal de fé no negócio. Convém guardar o número na cabeça: é menos do que muito executivo intermediário de banco americano recebe de bônus trimestral, menos do que custa um carro de entrada nos Estados Unidos, uma fração ínfima da remuneração anual de qualquer CEO listado em bolsa. E, ainda assim, a notícia é vendida como se o homem tivesse hipotecado a casa para apostar no próprio negócio.
Quem conhece o jogo sabe do que se trata. Compras internas de ações por executivos viraram teatro de sinalização, um ritual coreografado onde o CEO gasta um valor calibrado para parecer significativo aos olhos do investidor de varejo, mas insignificante no orçamento pessoal dele. É o equivalente financeiro de acender uma vela num altar: o gesto vale pelo símbolo, não pelo peso. E o mercado, treinado a reagir a esse tipo de coreografia, obedece. As ações sobem um pouquinho, o relatório do dia seguinte cita a compra como fator positivo, e todo mundo finge que houve algo além de gerenciamento de percepção.
A OppFi opera no ramo de crédito para americanos com histórico ruim, aqueles que os bancos tradicionais rejeitaram e que dependem de empréstimos com juros que fariam corar um agiota da Baixada. É um negócio que floresce quando a economia aperta o pescoço do trabalhador comum, quando o cartão de crédito estoura, quando a inflação come o salário antes do dia dez. Ou seja, uma empresa cuja saúde depende diretamente do adoecimento financeiro da base da pirâmide americana, sustentada por um Banco Central que passou uma década imprimindo dinheiro para socorrer os grandes e agora empurra os pequenos para o balcão dos empréstimos de última instância.
Siga o dinheiro e a história fica mais clara. O CEO compra vinte e cinco mil em papéis, o mercado interpreta como voto de confiança, o preço reage, e o valor total das ações que ele já possuía, provavelmente milhões, sobe junto. É um retorno sobre investimento que faria inveja a qualquer trader de day-job: gastou o preço de uma cozinha planejada e movimentou percentualmente o patrimônio inteiro dele. Não há crime, não há irregularidade, há apenas a mecânica bem azeitada de como o capitalismo de sinalização substituiu o capitalismo de risco em Wall Street. Os mesmos executivos que exigem transparência do trabalhador comum operam num universo onde gestos simbólicos valem mais do que balanços.
O verdadeiro escândalo não está na compra, está em quem paga a conta do modelo inteiro. Empresas de crédito subprime só existem em escala porque décadas de política monetária frouxa e regulação financeira criaram um exército de consumidores permanentemente endividados, correndo atrás do próprio rabo enquanto os juros compostos comem tudo. O governo americano gasta como se não houvesse amanhã, o dólar perde poder de compra num ritmo que nenhum contracheque acompanha, e o resultado é uma indústria inteira lucrando com a decomposição financeira da classe média baixa. Nesse arranjo, o CEO comprando papéis da própria empresa é apenas o último elo visível de uma cadeia que começou muito antes, em algum comitê de política monetária decidindo que dinheiro barato resolveria tudo.
No fim, a lição é velha e ninguém aprende. Quando a notícia econômica do dia é um executivo gastando o equivalente ao salário anual de um professor para inflar simbolicamente o próprio patrimônio, o problema não é o executivo, é a plateia que aplaude. O mercado que se contenta com esse tipo de teatro é o mesmo que vai gritar por resgate quando a próxima bolha estourar, e vai encontrar prontamente um Banco Central disposto a socializar o prejuízo enquanto os lucros já foram privatizados há muito tempo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.