A cena beira o cômico. Executivos das maiores empresas de tecnologia do planeta se juntam num painel para pressionar o chefe da Anthropic sobre o discurso permanente de risco existencial que ele leva a cada audiência no Congresso americano. Traduzindo o teatro: um grupo de bilionários questiona outro bilionário sobre por que ele passa os dias avisando que o produto que todos vendem pode destruir a humanidade. E ninguém no palco tem coragem de dizer o óbvio, que esse pânico calibrado tem endereço, tem beneficiário e tem fatura.
Olha, quando o próprio fabricante de um produto grita para o governo que seu produto é perigoso demais para existir sem supervisão federal minuciosa, alguma coisa está fora do lugar. Historicamente, o empresário que abraça a regulação pesada não o faz por virtude cívica. Ele o faz porque calculou, com lápis e papel, que o custo de conformidade vai quebrar a espinha do concorrente menor, do laboratório universitário, do desenvolvedor solitário no porão, do startup que ainda não tem departamento jurídico com trinta advogados. Regulação apertada é fosso de castelo. Quem já está dentro do castelo aplaude o fosso; quem está fora se afoga tentando atravessar.
Quer dizer, a Anthropic recebeu bilhões de investimento de gigantes do varejo digital e da computação em nuvem. Não é uma organização de escoteiros preocupada com a alma da humanidade. É uma empresa com investidores, com valuation, com pressão por retorno. Quando seu líder desce em Washington vestido de profeta do apocalipse pedindo licenças, auditorias, comitês, avaliações de risco e certificações federais, ele está fazendo lobby vestido de filósofo. Segue o dinheiro e você entende o roteiro. A regulação proposta vai criar barreiras de entrada que somente empresas capitalizadas por titãs conseguem pagar. O resultado prático é a captura do mercado por meia dúzia de jogadores, todos com assento na mesa que redige a lei que os favorece.
E aqui aparece o velho vício que já vimos no setor bancário, no farmacêutico, no de telecomunicações, no automotivo. O sujeito grande vai ao governo, pede regulação em nome do interesse público, ajuda a escrever o texto, garante que ele mesmo consegue cumprir os requisitos e, na saída, o mercado fica limpo de competidores incômodos. Não é conspiração, é manual básico de captura regulatória. O que os cidadãos veem é a manchete sobre proteção contra riscos futuros. O que não veem é o exército de inovadores que nunca vai existir porque a barreira de conformidade os matou antes do primeiro produto.
Me diz uma coisa, se a inteligência artificial fosse realmente uma ameaça existencial imediata e catastrófica, o comportamento racional da Anthropic seria fechar as portas amanhã, devolver o dinheiro dos investidores e queimar os pesos dos modelos. Não é o que acontece. Continua treinando, continua vendendo API, continua contratando engenheiros, continua expandindo. Ou seja, o risco existencial é grave o suficiente para justificar uma nova agência federal, mas não é grave o suficiente para justificar parar o próprio negócio. É a mesma incoerência do industrial que denuncia a poluição enquanto expande a fábrica, contanto que seja ele quem escreva o regulamento ambiental.
O painel dos concorrentes cutucando o profeta serve, no fim das contas, para expor o cinismo da encenação. Uns querem correr sem freio, outros querem impor freio somente nos rivais, e o público paga a conta em qualquer cenário, seja em produto pior, seja em inovação sufocada, seja em nova burocracia federal cobrada em imposto. Quando alguém pede coleira para si próprio publicamente, verifique quem está segurando a outra ponta da coleira e quanto está pagando por ela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.