Hiren Hasmukhlal Dave, diretor financeiro da C3.ai, se desfez de aproximadamente US$ 220.886 em ações da empresa que ele mesmo ajuda a comandar. O fato é pequeno na aparência, quase burocrático, do tipo que o jornalismo econômico registra em nota de rodapé entre uma matéria patrocinada e outra sobre o próximo unicórnio da moda. Mas quem entende de mercado sabe que essas notas de rodapé costumam contar a história verdadeira, aquela que o release oficial da companhia jamais admitirá.

A C3.ai é uma dessas empresas que vive de vender promessa. Inteligência artificial corporativa, transformação digital, plataforma de nuvem, todos os substantivos brilhantes do vocabulário do Vale do Silício empilhados num único ticker. O preço da ação sobe e desce ao sabor de cada declaração grandiloquente do fundador, cada parceria anunciada com pompa, cada trimestre em que o prejuízo é maquiado como investimento estratégico. E enquanto o pequeno investidor engole a narrativa servida em bandeja pelos analistas de banco, o executivo que assina os balanços vai discretamente ao caixa e converte papel em dinheiro de verdade.

Existe uma velha regra que os manuais escondem porque desmontaria metade da indústria financeira, quem está por dentro compra quando acredita e vende quando precisa. Executivo não vende ação por diversão. Vende porque quer diversificar patrimônio, porque tem despesa pessoal, porque desconfia do preço atual, ou porque simplesmente sabe algo que o mercado ainda não sabe. Qualquer que seja o motivo, a mensagem implícita nunca é otimista. Quando quem carrega o cofre debaixo do braço decide aliviar o peso, o resto de nós deveria pelo menos perguntar por quê.

O mais fascinante do episódio é o silêncio ensurdecedor dos mesmos comentaristas que passam o dia inteiro pedindo que o varejo compre o rally da inteligência artificial. Se o preço subisse dez por cento na semana, teríamos manchetes eufóricas em vinte portais. A venda insider, que é sinal genuíno, vira nota discreta perdida no fluxo diário de informações irrelevantes. É assim que o entusiasmo é fabricado, escolhendo o que ganha destaque e o que dorme no rodapé, moldando a percepção do rebanho enquanto os pastores do próprio setor fazem exatamente o oposto do que pregam.

O ciclo se repete em cada bolha da história recente. Empresa promissora, executivos ricos em opções, narrativa mágica, varejo entrando por último e saindo primeiro no vermelho. Chamam isso de democratização do investimento, mas o nome correto é distribuição ordenada de risco dos poucos que sabem para os muitos que acreditam. A cada duzentos mil dólares que um CFO recolhe silenciosamente, uma quantidade equivalente de esperança é transferida do bolso de alguém que trabalhou o mês inteiro para pagar a fatura do sonho alheio.

Se você quer saber para onde vai uma ação, não pergunte ao analista que ganha comissão por movimentá-la. Pergunte ao homem que assina os cheques da empresa e observe o que ele faz com o próprio patrimônio. As palavras dele são para os acionistas, os atos dele são para si mesmo, e é sempre entre um e outro que mora a verdade que ninguém quer imprimir.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.