O diretor financeiro da Hinge Health, empresa de fisioterapia digital que abriu capital há pouco tempo prometendo revolucionar a saúde musculoesquelética, acaba de despachar quatro milhões e novecentos e setenta mil dólares em ações próprias. Não é um sujeito qualquer se desfazendo de papel: é o homem que assina o balanço, que conhece a fatura de amanhã antes de qualquer analista de banco, que sabe onde estão os buracos que o release trimestral vai maquiar. Quando esse cidadão vende, ele não está diversificando patrimônio; está lendo um livro que você não tem acesso.

Existe uma assimetria de informação que o mercado finge não enxergar. O executivo insider tem acesso ao pipeline de contratos, ao ritmo de queima de caixa, à conversa com o auditor, ao humor do conselho. O varejista tem acesso ao gráfico do dia anterior e à recomendação otimista do banco que ganhou comissão no IPO. Chamar isso de mercado eficiente é o mesmo que chamar de justa a corrida em que um corredor sai cinco minutos antes com um mapa e o outro descobre o trajeto pelo cheiro. E ainda tem quem defenda que essas vendas programadas, essas planilhas de dez-b-cinco, resolvem o problema, como se agendar o assalto o tornasse legítimo.

A Hinge Health chegou à bolsa embalada pela narrativa de que a telemedicina musculoesquelética iria substituir clínica física, contratos corporativos gordos, receita recorrente, tudo aquilo que faz o marketing financeiro babar. O papel foi vendido a fundos, alocado em carteiras de aposentadoria, empurrado para o pequeno investidor que acredita em disrupção. Meses depois, quem estruturou o discurso está monetizando o próprio discurso. Não é ilegal, é pior: é o funcionamento normal de um sistema desenhado para que quem imprime a narrativa colha antes de quem a consome.

Siga o dinheiro e você encontra o padrão. IPO recente, lock-up expirado, bancos que ganharam taxa na oferta, executivos que ganharam opções a preços simbólicos, e agora a fila do caixa. O sujeito exerceu direito, pagou o mínimo, vendeu no máximo. Do outro lado da mesa está o fundo de pensão do professor aposentado, o dentista que quis apostar em inovação, o jovem que leu no jornal econômico que saúde digital é o futuro. Alguém tem que segurar o mico enquanto a música toca, e nunca é quem escolheu a playlist.

Nada disso significa que a empresa vai quebrar amanhã ou que o produto não presta. Significa apenas que existe uma hierarquia de informação, e que a hierarquia se traduz em transferência de riqueza dos que confiam para os que sabem. O capitalismo de verdade, aquele em que empreendedor arrisca patrimônio próprio e responde pelos prejuízos, é uma coisa. Este teatro de opções, ofertas subsequentes e portas giratórias entre balcão e conselho é outra bem diferente, embora insista em usar o mesmo nome.

A lição é velha e as pessoas continuam se recusando a aprender. Quando o cozinheiro para de comer da própria comida, desconfie do prato. Quando o piloto salta antes do pouso, verifique o paraquedas. Quando o guardião do cofre esvazia a conta pessoal em ações da empresa que ele mesmo administra, pare de perguntar se a ação vai subir e comece a perguntar por que ele acha que não vai.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.