O fato é pequeno e por isso mesmo revelador. O CFO da Tenax Therapeutics, uma biofarmacêutica que vive daquela zona cinzenta entre a promessa clínica e o balanço no vermelho, sacou algo em torno de dez mil e novecentos dólares e comprou ações ordinárias da própria empresa. Não foi opção exercida, não foi grant de conselho, não foi bônus disfarçado. Foi dinheiro dele, saindo da conta dele, entrando num papel que ele conhece por dentro melhor do que qualquer analista de Wall Street conhece por fora.
Quer dizer, quando o sujeito que assina os cheques da companhia decide virar acionista com o próprio salário, ele está dizendo em silêncio o que nenhum press release ousaria dizer em voz alta. Existe uma diferença abissal entre o executivo que fala bonito em conference call e o executivo que aposta o próprio patrimônio. O primeiro custa caro e entrega narrativa. O segundo custa a si mesmo e entrega sinal. E sinal, no mercado, é a única coisa que vale mais do que ouro, porque é a única coisa que não pode ser fabricada por relações públicas.
Olha, é preciso entender o que se vê e, sobretudo, o que não se vê. O que se vê é uma compra modesta, quase risível diante dos bilhões que circulam no setor farmacêutico americano. O que não se vê é o custo de oportunidade daquele dinheiro, os outros ativos que o executivo poderia ter escolhido, o conhecimento privilegiado sobre o pipeline da empresa que ele carrega na cabeça e que a SEC obriga a divulgar justamente porque sabe que insider trading não é rumor de padaria, é fato objetivo travestido de coincidência. Compra de insider é linguagem de fumaça, e quem entende de fumaça sabe ler.
Me diz uma coisa, quantas vezes você viu diretor financeiro de estatal brasileira comprando papel da própria empresa com dinheiro do bolso? Não viu, porque o modelo aqui é outro. Aqui o executivo indicado por padrinho político não precisa comprar ação, ele precisa entregar cargo, contrato e sobra de licitação para o grupo que o colocou. A diferença entre uma economia que ainda respira mercado e uma economia capturada por compadrio se mede exatamente nesses gestos minúsculos. Lá o CFO arrisca o próprio salário. Cá o CFO arrisca o dinheiro do contribuinte e nunca o próprio.
Há ainda a questão mais profunda, que ninguém no jornalismo econômico brasileiro se dá ao trabalho de tocar. O valor de uma ação não está no custo de desenvolvimento da droga, não está no gasto acumulado em pesquisa, não está no PhD do diretor científico. Está exclusivamente na expectativa subjetiva de quem compra sobre o que aquele papel vai render. Toda vez que um banco central decide imprimir dinheiro para financiar gastança de governo, essa expectativa é distorcida, e o preço deixa de ser sinal para virar ruído. Compra de insider, nesse ambiente contaminado, é um dos poucos indicadores que ainda escapam da manipulação monetária, porque o cara está apostando com o próprio couro.
No fim, a lição da notícia miúda é a lição que os grandes gestores repetem em surdina e os intelectuais de esquerda fingem não escutar. O capitalismo funciona quando o risco é privado e o lucro também. Deixa de funcionar quando o Estado socializa o prejuízo e privatiza o benefício, quando o executivo é premiado por perder, quando o burocrata é blindado das consequências das próprias decisões. Onze mil dólares de um CFO valem mais do que onze bilhões de subsídio governamental, porque um é confissão de fé no próprio trabalho, e o outro é confissão de fé no bolso alheio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.