Na última sexta-feira, dia 18 de setembro, o mais alto oficial militar da aliança atlântica veio a público celebrar aquilo que qualquer camponês medieval reconheceria em três segundos: a transferência formal, permanente e sorridente do controle sobre a segurança e a defesa da Groenlândia para as mãos de Washington. O anúncio foi vendido como cooperação, parceria estratégica, blindagem contra ameaças no Ártico, esse vocabulário elástico que serve para embrulhar qualquer coisa, desde a compra de um porta-aviões até a rendição de uma nação inteira. O interessante não é o acordo em si, é o tapete vermelho estendido pelo general. Quando o guardião da porta bate palmas para quem acaba de arrombar a fechadura, alguma coisa está fora do lugar.

Convém lembrar que a Groenlândia é, no papel, território autônomo do Reino da Dinamarca. Copenhague, oficialmente, exerce soberania sobre a ilha desde o século dezoito, quando aquilo ainda era colônia de foca e bacalhau. Hoje o subsolo guarda terras raras, urânio, petróleo debaixo do gelo derretido, e uma posição geográfica que faz qualquer estrategista de gabinete babar sobre o mapa. Pois foi justamente esse pedaço de imóvel valorizado que o governo dinamarquês, sem plebiscito e sem consulta séria aos habitantes locais, decidiu terceirizar. A independência formal continua no papel. O comando das operações de segurança, que é onde a soberania de fato mora, mudou de endereço. É como vender a chave de casa e continuar dizendo que você é o dono porque seu nome está na escritura.

E aqui a pergunta que todo colunista honesto precisa fazer, aquela que ninguém no salão diplomático quer ouvir: quem paga e quem recebe? O contribuinte dinamarquês paga a conta política, entrega um pedaço da própria história e leva de volta o consolo de continuar existindo no mapa. O contribuinte americano paga a conta militar, financia bases, radares, submarinos, aviões que sobrevoarão céus que ele nunca verá. O groenlandês nativo, esse coitado, paga a conta antropológica, vira peça de tabuleiro sem nunca ter sido consultado como jogador. E quem recebe? Os fornecedores do complexo industrial da defesa, as empreiteiras que erguerão instalações no permafrost, as mineradoras que aguardam licenças, os burocratas que agora terão novos cargos, novos comitês, novas viagens de inspeção com diárias em coroa e dólar. O sorriso do general não é gratuito. Nunca é.

A justificativa oficial invoca, claro, a ameaça russa, a ameaça chinesa, o degelo do Ártico, o eixo do mal itinerante que muda de rosto conforme a conveniência orçamentária. Funciona sempre. Assuste o rebanho com o lobo e ele agradece pela cerca eletrificada, mesmo quando a cerca é paga com o couro dele. O truque é antigo, tão antigo quanto os generais romanos que descobriram ser mais fácil governar províncias distantes convencendo os locais de que os bárbaros estavam sempre a três dias de marcha. Cria-se o inimigo, cria-se a solução, cria-se o orçamento, cria-se a base permanente. E, ao final, cria-se a dependência, que é o verdadeiro objetivo. Uma nação que terceiriza sua defesa terceiriza também seu destino, e essa é uma dívida que nenhum tratado quita.

Chama atenção, ainda, o silêncio ensurdecedor daqueles que costumam encher a boca com autodeterminação dos povos quando o assunto é conveniente. Fosse a Rússia instalando presença permanente numa ilha autônoma alheia, os editoriais estariam em brasa, os embaixadores convocados, as sanções redigidas. Sendo Washington, o mesmo ato vira acordo, parceria, marco histórico. A régua muda conforme a mão que segura, e é exatamente por isso que o vocabulário diplomático foi inventado: para que a mesma coisa possa ser chamada de invasão num dia e cooperação no outro, dependendo apenas do sotaque do ocupante. O rei está nu, mas veste um distintivo da aliança, então ninguém aponta.

No fim das contas, o que se assinou naquela sexta não foi um acordo de defesa. Foi um contrato de vassalagem redigido em papel timbrado, com carimbo de chancelaria e bênção militar. A Dinamarca ganhou tapinha nas costas, os Estados Unidos ganharam um porta-aviões geográfico permanente, a aliança ganhou palanque, e o povo groenlandês ganhou a promessa de continuar sendo estatística. O general elogiou porque general nenhum elogia acordo que reduza seu orçamento, sua influência ou sua importância. Ele bate palmas pela mesma razão que o alfaiate elogia o casaco do imperador: porque a conta vai chegar, e ele já sabe para onde. Enquanto isso, do outro lado do gelo, o cidadão comum, dinamarquês, americano ou inuíte, continua fazendo aquilo que sempre fez em episódios assim, que é pagar a conta sem nunca ter sido convidado para o jantar.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.