A Administração Estatal para Regulação do Mercado da China anunciou investigações contra quatro grandes plataformas de reservas de viagens online, acusadas do pecado capital de praticar preços diferentes para clientes diferentes, cobrar comissões consideradas altas de hotéis parceiros e supostamente manipular exibição de resultados. O comunicado veio embrulhado no papel de presente de sempre, defesa do consumidor, concorrência leal, ecossistema saudável. Quem acompanha o roteiro há mais de dez minutos sabe que essa peça já foi encenada com Alibaba, Didi, Tencent, Ant Group e uma fila de outros. O nome muda, o figurino é o mesmo.
Vamos ao que interessa, que é seguir o dinheiro e o poder. Preço diferenciado por perfil de cliente não é fraude, é a coisa mais banal do capitalismo, chama-se discriminação de preço e existe desde que o primeiro feirante cobrou mais caro do turista do que do vizinho. Companhia aérea faz, hotel faz, cinema faz com meia-entrada, supermercado faz com cupom. O que Pequim está chamando de abuso é simplesmente o mecanismo pelo qual essas plataformas conseguem preencher quartos vazios e assentos vagos, gerando lucro para quem investiu e viagem mais barata para quem chegou na hora certa. Proibir isso não protege o consumidor, encarece a estadia média e quebra a margem de quem opera. Mas o objetivo declarado nunca é o objetivo real.
O objetivo real está escrito nas entrelinhas de qualquer relatório do Partido dos últimos cinco anos. A economia chinesa está patinando, o setor imobiliário virou pó, o consumo interno não decola, os jovens desempregados são tantos que pararam de publicar a estatística, e o dinheiro que deveria estar circulando está entesourado ou fugindo do país. Nesse cenário, o Estado precisa mostrar serviço, precisa reafirmar quem manda, precisa lembrar aos empresários bem-sucedidos que o sucesso deles é concedido, não conquistado. A investigação contra as plataformas de viagem é o cassetete pedagógico de sempre, aplicado no setor da vez.
Preste atenção no timing. Turismo doméstico foi justamente o único ponto de alívio da economia chinesa recente, com feriados batendo recordes de deslocamento interno. Ou seja, o regulador vai bater exatamente no setor que estava funcionando, com a desculpa de proteger o consumidor que estava viajando. É a lógica invertida de todo intervencionismo, quando algo dá certo apesar do Estado, o Estado entra para reivindicar o crédito ou para garantir que dê errado do jeito certo. O empreendedor chinês aprendeu na marra que crescer demais é sinalizar alvo. O bilionário que ontem era herói da modernização hoje some por semanas e reaparece pedindo desculpas em rede nacional.
Enquanto os incautos do Ocidente ainda debatem se a China é capitalista ou socialista, ela mesma responde com atos como esse. Capitalismo tem propriedade privada de verdade, tem contrato que o Estado respeita, tem previsibilidade jurídica, tem limite para o poder político sobre o econômico. O que existe em Pequim é uma economia de mercado tutelada, onde o empresário opera enquanto for útil ao projeto de poder e é triturado no minuto em que deixa de ser. E o mais tragicômico é ver economista de banco brasileiro elogiando esse modelo como exemplo de eficiência estatal, sem perceber que está aplaudindo a coleira porque nunca precisou usá-la.
A lição vale para casa. Toda vez que um regulador aqui, com sotaque menos ameaçador e ternos piores, fala em coibir preços abusivos, garantir concorrência justa ou proteger o consumidor de plataformas digitais, é o mesmo verbo conjugado em outra língua. O consumidor nunca pediu essa proteção, quem pediu foi o concorrente incomodado ou o burocrata precisando justificar salário. E o preço da proteção sempre acaba embutido na próxima passagem que você comprar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.