Pequim anunciou que vai construir uma constelação de satélites em parceria com cientistas e instituições do mundo todo, com lançamentos previstos antes de 2030. A notícia foi vendida como um gesto de cooperação científica planetária, quase um presente da humanidade para a humanidade. Traduzindo do idioma diplomático para o português do padeiro: o Partido Comunista Chinês vai bancar a infraestrutura, distribuir crachás de colaborador honorário, e cada pesquisador estrangeiro que apertar um botão estará, sem saber, contribuindo para um ativo estratégico controlado por um único dono. O nome disso, quando um particular faz, é captura de mercado. Quando um Estado faz, chamam de diplomacia.

É fascinante observar como o mesmo Ocidente que passou uma década implorando para banir aplicativos chineses de celulares adolescentes agora se prepara para ceder seus melhores cérebros e seus melhores dados orbitais a satélites operados pela mesma matriz. A memória curta é o principal insumo da geopolítica moderna. Quem lança o foguete decide o que sobe, quem opera a estação decide o que desce, e quem paga a conta de energia decide quando o interruptor será desligado. O restante é folclore para relatório de universidade pública. E o cientista brasileiro, coitado, achando que vai virar coautor de artigo na Nature quando, na verdade, está virando estagiário não remunerado do orçamento militar alheio.

Vale lembrar a mecânica elementar do arranjo. Satélites custam bilhões, e bilhões não caem do céu, apesar da ironia. Saem do bolso do contribuinte chinês, que trabalha catorze horas por dia numa fábrica em Shenzhen para que o burocrata em Pequim possa distribuir prestígio internacional. O mesmo esquema, repetido em todas as latitudes: extrai-se por baixo, redistribui-se por cima, e chama-se o resultado de generosidade. A diferença é que, quando o subsídio é doméstico, alguém eventualmente reclama do imposto. Quando o subsídio é internacional, o beneficiário ainda manda um cartão de agradecimento. É o golpe perfeito: você paga para ser cooptado e depois assina embaixo.

A pergunta que ninguém faz nas coletivas é banal e por isso mesmo mortal. Quem controla os dados coletados? Quem decide o que é publicável e o que fica trancado no cofre? Quem tem a chave criptográfica dos canais de comunicação? Quem opera os terminais de solo? Se todas as respostas apontam para o mesmo endereço em Pequim, a palavra cooperação vira eufemismo constrangedor. A ciência, quando depende de infraestrutura monopolizada, deixa de ser ciência e vira departamento. E departamento tem chefe, e chefe tem interesse, e interesse não costuma coincidir com verdade.

Há ainda o detalhe menor, quase pitoresco, de que satélites de observação servem tanto para estudar geleiras quanto para mapear silos de mísseis, tanto para medir chuva quanto para contar tanques na fronteira. A tecnologia é a mesma, o que muda é quem lê o pixel. Ao convidar o mundo para preencher os sensores com aplicações civis, Pequim resolve dois problemas de uma só tacada: dilui o custo político da militarização orbital e acumula legitimidade científica para blindar o programa quando, daqui a alguns anos, alguém finalmente perceber que a constelação também tem farda. O truque é antigo, foi usado por todo império que se preze, e continua funcionando porque a plateia insiste em bater palma antes do último ato.

No fim, a história de sempre. Um Estado gigantesco monta uma infraestrutura estratégica com dinheiro extorquido de sua própria população, oferece migalhas de acesso a estrangeiros ávidos por publicações, e vende o pacote como filantropia cósmica. Os cientistas brasileiros vão adorar, os reitores vão posar para foto, os ministérios vão assinar memorandos, e daqui a dez anos, quando o interruptor for desligado num momento de tensão diplomática, todos vão descobrir juntos que satélite emprestado tem prazo de validade político. Quem paga é o contribuinte chinês, quem recebe é o Partido, e quem serve de vitrine útil é o resto do mundo. Aplausos, por favor.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.