Pequim bateu na porta do Eliseu pedindo que Paris ajude a apaziguar Bruxelas nas tensões comerciais com a União Europeia. Traduzindo do diplomatês para o português da vida real: o segundo maior parque industrial do planeta, aquele que passou décadas anunciando que iria ditar as regras do século, agora manda emissário pedir que a França convença os alemães, italianos e espanhóis a não taxarem seus carros elétricos, seus painéis solares e seus produtos de aço subsidiado. Quem tem posição de força não pede favor, cobra respeito. E quem passou trinta anos inundando o mundo com produto barato bancado por crédito estatal descobre, tarde, que subsídio não é vantagem competitiva, é dívida disfarçada de milagre.

Olha, o roteiro é velho e a plateia deveria conhecer de cor. O regime comunista chinês construiu seu parque industrial com dinheiro que não existia, tomado de bancos estatais que emprestavam para empresas estatais que produziam para mercados que não existiam ainda, tudo lastreado numa expansão de crédito que nenhuma economia de mercado suportaria sem colapsar. Enquanto a festa durou, os importadores ocidentais aplaudiram o preço baixo e os políticos europeus fingiram não ver que estavam trocando empregos locais por descontos temporários no supermercado. Agora que a conta chegou, com a bolha imobiliária estourando em Xangai e o consumo interno chinês patinando abaixo do previsto, Pequim precisa escoar o excedente a qualquer custo. Só que Bruxelas, pela primeira vez em muito tempo, decidiu contar o preço invisível.

Me diz uma coisa: por que a França, especificamente? Porque Macron passou os últimos anos flertando com a chamada autonomia estratégica europeia, que na prática significa desafiar o comando americano sempre que der voto interno. Xi Jinping farejou a brecha e resolveu apostar que a vaidade francesa fala mais alto que o cálculo econômico alemão. É jogo de xadrez com peça já capturada, tentando confundir o adversário no lance final. E funciona parcialmente, porque Paris tem uma indústria de vinho, de aviação e de luxo que depende do consumidor chinês, e Pequim sabe onde apertar. O problema é que a Alemanha depende ainda mais da China para vender BMW e Mercedes, e mesmo assim votou pelas tarifas. Quando o alemão aceita perder mercado para proteger a indústria local, é porque a farsa ficou insustentável.

Siga o dinheiro e a peça se encaixa. Cada carro elétrico chinês vendido na Europa por metade do preço de um concorrente europeu carrega dentro dele um subsídio implícito pago pelo contribuinte chinês, pelo poupador chinês, pelo trabalhador chinês que aceita salário abaixo do mercado e pelo cidadão chinês que não tem direito de reclamar. Isso não é livre comércio, é dumping industrial estatal financiado por um sistema financeiro fechado que não responde a preço nenhum. A União Europeia, apesar de todos os seus vícios burocráticos, e são muitos, acertou ao perceber que aceitar essa importação subsidiada equivale a terceirizar sua base industrial para um regime que não reconhece direito de propriedade, não reconhece contrato e não reconhece limite ao capricho do partido.

A ironia mais deliciosa é essa: o país que passou décadas acusando o Ocidente de imperialismo econômico, o país que se dizia campeão da soberania nacional contra a globalização americana, o país que ergueu monumentos ao trabalhador contra o capital estrangeiro, agora suplica que os capitalistas europeus abram o mercado para suas mercadorias estatais. Quer dizer, o discurso da autarquia socialista serve para dentro, para controlar a população. Para fora, o que Pequim quer é o mesmo que qualquer mercantilista de manual sempre quis: exportar tudo, importar nada, acumular ouro e chamar isso de estratégia. Só que ouro hoje se chama dólar, e o dólar continua sendo emitido em Washington, não em Xangai.

Na hora em que a maior potência industrial socialista do mundo precisa pedir a Paris que interceda por ela em Bruxelas, o que se está anunciando não é uma crise comercial passageira, é o fim de uma ilusão. A ilusão de que planejamento estatal produz prosperidade duradoura, a ilusão de que crédito artificial substitui poupança real, a ilusão de que o mundo inteiro toparia eternamente comprar produto subsidiado e financiar o subsídio comprando dívida chinesa. O império do meio descobriu que precisa do consentimento dos mercados que despreza. E o consentimento acabou de sair caro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.