A Xpeng, montadora chinesa que há cinco anos ninguém fora de Guangzhou sabia pronunciar, acaba de anunciar que vai licenciar sua plataforma de veículo elétrico e seu sistema de direção autônoma para as montadoras estrangeiras que quiserem comprar. Traduzindo do mandarim para o português econômico, isso significa que a Volkswagen, a Ford, a Stellantis e possivelmente a General Motors vão pagar royalty para uma empresa que existia como startup obscura quando Dilma ainda era presidente. O anúncio foi feito com a naturalidade de quem informa a previsão do tempo, e é exatamente essa naturalidade que devia acender o alarme de qualquer um que ainda acredita no conto de fadas da indústria automotiva ocidental.
Olha, quando o concorrente vira fornecedor do concorrente, o jogo já foi decidido em outra sala. A Volkswagen, aquela mesma que dominou o mercado brasileiro durante meio século com fusca, kombi e gol, hoje precisa comprar plataforma elétrica de uma chinesa para não desaparecer do mercado chinês, que é onde as montadoras alemãs faziam metade do lucro global. A Ford desistiu do Brasil em 2021, fechou Camaçari, mandou milhares de operários para casa, e agora corre atrás de tecnologia que o Estado brasileiro tentou fabricar aqui com subsídio de Rota 2030, incentivo do BNDES e proteção tarifária de 35 por cento. Deu no que deu.
Me diz uma coisa, quantos bilhões de reais o contribuinte brasileiro já injetou em Manaus, Camaçari, São Bernardo e Betim para sustentar uma indústria que agora precisa mendigar tecnologia de uma empresa que não existia? O IPI diferenciado, o regime automotivo, o Inovar Auto, o Rota 2030, cada sigla dessas é um caminhão de dinheiro público empurrado para dentro do bolso de multinacional que devolveu carro caro, tecnologia atrasada e demissão em massa quando a conta apertou. E o consumidor brasileiro pagou duas vezes, uma no imposto, outra no preço inflado do sedan que na China custa a metade e roda com autonomia de mil quilômetros.
A Xpeng conseguiu essa proeza sem regime automotivo, sem Inovar Auto, sem proteção tarifária brasileira. Conseguiu porque na China o capital privado tem permissão para errar, quebrar, tentar de novo e crescer sem ter que preencher formulário do Ministério do Desenvolvimento a cada parafuso instalado. O resultado está aí, sistema de condução autônoma de nível quatro, bateria com carregamento em dez minutos e um preço que faz a Tesla parecer artesanato caro. Enquanto isso, a Anfavea desfila em Brasília pedindo mais subsídio, mais imposto sobre importado e mais tempo para se preparar para a transição elétrica que já aconteceu há três anos.
O que se vê no anúncio da Xpeng é o licenciamento tecnológico. O que não se vê é o funeral da política industrial ocidental dos últimos quarenta anos, uma política que gastou trilhão em subsídio, protecionismo, planejamento estatal e cotas locais para produzir montadoras que hoje precisam pagar pedágio para a rival asiática só para continuar existindo. E quando o consumidor brasileiro finalmente puder comprar um elétrico decente por preço de Ka usado, vai descobrir que passou trinta anos financiando o atraso alheio com dinheiro que devia ter ficado no próprio bolso.
A moral da história é velha e teimosa. Mercado protegido produz produto ruim, empresa preguiçosa e consumidor refém. Mercado aberto produz Xpeng, BYD, Nio e a fila de montadoras chinesas que estão engolindo o Ocidente enquanto Brasília discute cota de conteúdo local para peça que nem se fabrica mais. A proteção nunca protegeu ninguém além do lobista que a inventou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.