A Chubb anunciou nesta semana a nomeação de novos líderes para sua unidade de negócios digitais, e a notícia foi tratada com a solenidade reservada a acordos de paz. Um vice-presidente sobe, outro executivo migra de área, uma diretoria de inovação ganha nome novo, e o release corporativo vem embrulhado no jargão de sempre, transformação digital, sinergia de plataforma, experiência do cliente centrada em dados. Traduzindo do corporativês para o português, a companhia está reorganizando quem responde a quem dentro de uma estrutura que existe fundamentalmente para lidar com a montanha de compliance, regulação e fricção burocrática que sufoca o setor de seguros no mundo inteiro.
Quer dizer, olha a cena. Uma seguradora, cuja função original é calcular risco e cobrar prêmio proporcional, precisa manter camadas e mais camadas de gerência digital para dar conta de exigências que nada têm a ver com o negócio em si. São diretrizes de proteção de dados que mudam a cada trimestre, relatórios prudenciais que crescem por decreto, auditorias de conformidade em três jurisdições diferentes, e um caminhão de papelada eletrônica que precisa ser produzida, arquivada, indexada e reapresentada quando o burocrata da vez resolver que quer ver de novo. O ganho de eficiência que a digitalização deveria entregar ao consumidor é engolido pelo custo de atender ao regulador.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Cada real gasto com esse aparato interno não vem de céu limpo; vem embutido no prêmio que o segurado paga todo mês. O motorista que renova o seguro do carro, a família que contrata cobertura residencial, o pequeno empresário que faz seguro contra incêndio, todos eles estão financiando, sem saber, a folha de pagamento de uma diretoria inteira criada para dialogar com burocratas em Bermuda, Londres, Zurique e Brasília. É a tributação invisível por excelência, aquela que não aparece no holerite mas corrói o poder de compra em silêncio.
E existe uma ironia deliciosa aqui. O discurso oficial diz que a regulação existe para proteger o consumidor, e o resultado prático é uma indústria em que as menores seguradoras não conseguem sequer entrar no mercado, porque não têm caixa para bancar a estrutura de compliance mínima. Sobra oligopólio. Sobram três ou quatro gigantes globais dividindo o bolo, contratando executivos de transformação digital para trocar de cadeira entre si, enquanto o pequeno concorrente que ofereceria preço melhor nunca nasce. A cerca regulatória foi erguida com o argumento nobre da proteção e virou muralha protecionista para os incumbentes.
O que se vê é o release da Chubb, o LinkedIn dos novos nomeados, o parabéns do mercado financeiro. O que não se vê é o seguro que ficou dez por cento mais caro por causa dessa estrutura, o competidor menor que desistiu de operar naquele segmento, o consumidor que não contratou cobertura porque o prêmio ficou fora do orçamento. A economia real acontece nesse território invisível, e é justamente esse território que a imprensa especializada, viciada em cobrir o teatro corporativo, insiste em ignorar.
Me diz uma coisa, quantos executivos de transformação digital uma seguradora precisaria contratar num ambiente de regras claras, estáveis e proporcionais ao risco real do negócio? Provavelmente um punhado. O restante existe como cicatriz institucional, funcionários alocados para lidar com o Estado, não com o cliente. Trocar as cadeiras da cúpula digital não muda absolutamente nada nesse arranjo; apenas confirma que o setor aprendeu a viver dentro da gaiola e agora reorganiza os poleiros. O leitor que paga seguro deveria ler essa notícia não como novidade corporativa, mas como recibo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.